“Veio”, “Extrema”: como suspeitos de elo com PCC chamavam vereador do PT
Vereador Senival Moura foi preso nesta quinta-feira por suspeita de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro na Transunião/Foto: Reprodução
O vereador de São Paulo Senival Moura (PT), preso nesta quinta-feira (25/6) em uma operação contra a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público da capital, era conhecido por pessoas ligadas à facção como “Veio”, “Extrema” e “Presidente”, de acordo com relatório da Polícia Civil do estado. Os apelidos aparecem em trocas de mensagens entre outros investigados, também ligados à empresa de ônibus Transunião, que teria sido usada para ocultar recursos da organização criminosa.
Segundo as investigações, os diálogos revelaram que movimentações financeiras informais e repasses de grandes quantias em dinheiro, como pagamentos semanais de R$ 70 mil para “acertar os cara”, dependiam de anuência ou intervenção prévia.

Parte das conversas foi obtida pela polícia a partir do celular de Adauto Soares Jorge, ex-diretor financeiro da Transunião assassinado em 2020. Desde 2022 o Ministério Público de São Paulo (MPSP) investigava o envolvimento do vereador no caso.
Ao menos três anos antes do homicídio, em 2017, Leonel Moreira Martins faz referência a Senival em diálogos com Adauto. Em um deles, pede “5.000 amanhã sem falta” e cita o “presidente de novo lá em extrema”.
— Eu preciso hoje do 6.200, vc consegue? E dos 5.000 amanhã sem falta. Eu já falei com o presidente de novo lá em extrema, ele confirmou.
Segundo a investigação, “extrema” seria uma menção à cidade de Extrema, na divisa com Minas Gerais, onde Senival possui uma casa de alto padrão.
“Tal interpretação encontra respaldo no fato de que Senival Moura possui imóvel de elevado padrão localizado naquele município, circunstância que reforça a identificação do ‘presidente’ mencionado nas mensagens e confere maior consistência à vinculação entre os interlocutores e o contexto patrimonial investigado”, afirma a Polícia Civil.

Casa de Senival Moura, em Extrema
Mensagens que, segundo a polícia, indicam a anuência de Senival foram enviadas por Leonel a Adauto em diversas oportunidades em 2019, indicando que a relação seria contínua:
- 29/01/2019 — “Preciso pelo menos hoje. De 5. Falei com o veio ontem si cair do atrasado ele falou que sim”.
- 02/05/2019 — “Amanhã não esquece dos 20 já conversamos sobre isto e o veio também por favor”.
- 30/05/2019 — “5.000 nesta conta quarta feira já conversei com o veio”.
- 06/08/2019 — “Dia 15 valor 53.500. Já falei com o vereador”.
“Com efeito, o conjunto de interlocuções acima reproduzido evidencia que as deliberações relacionadas à movimentação e destinação paralela de recursos financeiros da gravitavam em torno da figura reiteradamente referida como ‘Veio’, cuja ciência, anuência ou intervenção prévia se mostrava necessária à operacionalização dos repasses discutidos entre os interlocutores”, diz a Polícia Civil no relatório que deu origem à operação.
A investigação aponta que, apesar de não integrar formalmente o quadro societário da Transunião, era o “verdadeiro detentor do poder de condução da estrutura paralela de gestão financeira, figurando como instância superior de deliberação acerca da movimentação informal de recursos”.
Morte de Adauto
O ponto de partida para as investigações foi a morte de Adauto Soares Jorge, morto a tiros em uma padaria no bairro Lajeado, na zona leste, em março de 2020. Dois anos depois, as investigações já apontavam que ele atuava como um laranja de Senival na Transunião.
Jair Ramos de Freitas, o “Cachorrão”, foi apontado como autor dos disparos. O Ministério Público acredita que o crime foi motivado por “quebra de confiança” financeira. Integrantes da facção teriam descoberto que Adauto estaria desviando valores da Transunião para subsidiar um “caixa dois” para a campanha de reeleição de Senival Moura em 2020, em detrimento dos repasses que deveriam ser feitos ao PCC.
Diante disso, o operador Leonel Martins teria sido escalado para resolver a questão por meio do tribunal do crime, que resultou na ordem de execução.
Operação Última Parada
Na operação Última Parada, além de Senival, foram alvos de mandado de prisão:
- Jair Ramos de Freitas (“Cachorrão”): apontado como autor do homicídio de Adauto Soares Jorge e articulador da lavagem de dinheiro.
- Senival Pereira de Moura (vereador): identificado como real beneficiário e líder oculto da Transunião.
- Leonel Moreira Martins: operador financeiro e elo entre a empresa e o núcleo familiar beneficiário.
- Lourival de França Monário: atual diretor-presidente formal da Transunião, envolvido em movimentações financeiras incompatíveis.
- Devanil de Souza Nascimento (“Sapo”): apontado como operador e suporte de Senival Moura; envolvido na morte de Adauto.
A Justiça determinou a suspensão das atividades econômicas da Transunião, pivô do esquema de lavagem de dinheiro, e da Duvale Distribuidora de Petróleo e Álcool Ltda, apontada como núcleo de lavagem em benefício do PCC. Também foi decretado o sequestro e bloqueio de R$ 194 milhões de contas bancárias ligadas aos investigados, além de 117 veículos, 21 imóveis e três embarcações.
Fonte: metropoles.com/Renan Porto