Quando a estabilidade não garante paz financeira
Por Graziela Gonçalves (*)
A Alice me ligou pedindo um horário para conversar. Ela queria entender como eu poderia ajudá-la a organizar suas contas. A indicação veio de sua advogada, que cuidava da sua ação de aposentadoria e me deu apenas um spoiler: “A Alice é um pouco desorganizada”.
No dia marcado, fui até o apartamento dela. Um espaço impecável, em uma ótima região da cidade. Encontrei uma mulher de 60 anos, médica, solteira, de gosto refinado e apaixonada por viajar.
Durante os três primeiros meses do nosso planejamento financeiro, mergulhamos nos números. Mapeamos as despesas mensais e a renda vinda do concurso público no hospital e do atendimento em clínica — um faturamento totalmente compatível com seus anos de estudo e dedicação. Mas algo no diagnóstico me surpreendeu: as dívidas.
Eram três ou quatro empréstimos consignados (alguns já refinanciados) e até um consignado feito sobre a pensão que recebia do pai. O mais impressionante é que não eram dívidas para comprar um imóvel, abrir um negócio ou cobrir uma emergência médica. Eram empréstimos contratados para pagar despesas corriqueiras e grande parte para ajudar pessoas próximas.
Precisávamos encarar a realidade: era hora de ajustar o orçamento e adequar o padrão de vida.
Alice tinha hábitos de consumo enraizados que já não cabiam no seu bolso: lavanderia externa para roupas simples, refeições fora de casa diariamente, doações sem critérios para quem pedisse, causa animal, rifas… Nada contra ser generosa — pelo contrário, ajudar é nobre —, mas tudo era feito sem controle, sem planejamento e, principalmente, sem clareza. O dinheiro simplesmente escorria pelas mãos.
Havia gastos diários na farmácia parcelados em infinitas vezes, assinaturas de livros e apostilas que nunca seriam lidos e cotas de consórcio compradas como “investimento”, sem qualquer análise prévia se cabiam no orçamento.
A mudança não aconteceu do dia para a noite; veio aos poucos. Começamos encarando o problema de frente. Listamos todas as dívidas e calculamos o quanto as parcelas “comiam” do seu salário todos os meses, somadas a altas taxas de juros.
O plano foi traçado: consignados que levariam quase 10 anos para serem quitados agora serão pagos em menos de 2 anos e meio.
O que realmente mudou? A visão da Alice. Ela compreendeu o valor do seu dinheiro e o quanto ele representa de horas de vida e dedicação ao trabalho. Por isso mesmo, não poderia mais ser gasto sem critério.
Algumas atitudes práticas mudaram a rota:
• Compras parceladas agora são feitas em, no máximo, 3 vezes.
• Despesas recorrentes do mês são pagas à vista.
• Roupas passaram a ser lavadas em casa e as refeições do dia a dia ganharam tempero caseiro (deixando os restaurantes para momentos especiais de lazer).
O resultado? Uma economia de algumas centenas de milhares de reais de juros com a quitação antecipada dos empréstimos e a garantia de que Alice voltará a ser, verdadeiramente, a dona do seu próprio salário. Ele não será mais tomado pelos consignados. Ela resgatou o seu poder de escolha.
Ver as grandes e sutis mudanças no comportamento de Alice me enche de orgulho. Quando a gente muda por dentro, a forma de pensar se transforma. Saímos da escassez e do descontrole para abraçar a organização.
Existe uma espécie de “mágica” na ordem. As coisas vão se encaixando e tudo ao redor começa a girar na mesma sintonia. Dinheiro que parecia perdido reaparece, causas judiciais ganham desfecho… É quase mágico — se não fosse divino.
Seja qual for a sua fé ou religião, não há como negar as leis da natureza como a semeadura e colheita – e os princípios milenares de sabedoria. Afinal, o que você tem plantado? Organização, generosidade, prosperidade?
Muitos economistas e psicólogos renomados escrevem hoje sobre conceitos que, ao abrirmos a Bíblia, descobrimos registrados há milhares de anos. O livro de Provérbios, por exemplo, é um verdadeiro manual prático de gestão de vida e finanças. Há um versículo em especial que resume perfeitamente a jornada da Alice e de tantos de nós:
Os planos bem elaborados levam à fartura; mas o apressado sempre acaba na miséria. (Provérbios 21:5)
A pressa em antecipar sonhos, resolver o presente com empréstimos fáceis ou o consumo sem reflexão costumam nos aprisionar. Mas quando paramos, encaramos a realidade e elaboramos um plano, a fartura — em forma de paz, liberdade e organização — inevitavelmente chega.
E eu encerro com um convite: que tal aceitar o desafio de tirar 5 minutos do dia para ler o livro de Provérbios este mês e dar o primeiro passo na elaboração dos seus próprios planos?

Graziela Gonçalves é Planejadora Financeira Pessoal. MBA em Planejamento Financeiro Pessoal e Familiar pela Faculdade Galicia. Graduação em Direito, especialista em Direito Administrativo e Direito Processual Civil. É servidora pública federal de carreira há 21 anos. Palestrante e instrutora de cursos e treinamentos.