Jaques é 1ª “demissão” de Lula no Congresso e expõe articulação frágil
Senador sai sob crise, e não por rearranjo ministerial. Sucessor terá de recompor diálogo com Alcolumbre, destravar pautas e evitar derrotas/Foto: Daniel Ferreira/Metrópoles
A saída de Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado foi a primeira baixa de um líder do atual mandato de Lula, no Congresso, provocada por uma crise política, e não por um rearranjo ministerial.
O movimento difere, por exemplo, da saída de José Guimarães (PT-CE) da liderança do governo na Câmara, que deixou o posto para assumir a Secretaria de Relações Institucionais.
No caso de Jaques, a saída foi tratada nos bastidores como uma espécie de “demissão” política, ainda que tenha sido anunciada publicamente pelo parlamentar como uma decisão em “comum acordo”.
O risco avaliado no Planalto era que a permanência de Jaques na liderança contaminasse a campanha de reeleição de Lula, que começa oficialmente em agosto. O senador foi alvo da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), que apura suspeitas envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Em publicação nas redes sociais, Jaques negou irregularidades e afirmou que sua prioridade, agora, será provar a própria inocência e se dedicar às campanhas de Lula, de Jerônimo Rodrigues (PT) ao governo da Bahia e à sua reeleição ao Senado.
A saída também expõe uma articulação já fragilizada no Congresso. Jaques era um dos nomes mais fortes do governo no Senado, mas a relação do Planalto com a Casa vinha acumulando derrotas, como a rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), por 42 votos contrários e 34 favoráveis, e reveses em votações sensíveis.
Dentro do PT, uma ala defendia a saída do senador para reduzir o desgaste eleitoral. Outra avaliava que a troca poderia soar como admissão de culpa e enfraquecer ainda mais a bancada governista.
Jaques como líder governista
Ainda assim, Jaques era considerado um dos principais ativos do governo no Senado. Aliado histórico de Lula, ex-governador da Bahia, ex-ministro e parlamentar experiente, ele ocupava uma posição estratégica na interlocução do Planalto com a Casa Alta. Por isso, sua saída tem peso maior do que uma troca comum de liderança.
O episódio reforça cobranças sobre a articulação política do governo no Congresso. Desde o início do terceiro mandato de Lula, aliados e parlamentares apontam falhas de coordenação entre o Planalto, os líderes partidários e os comandos da Câmara e do Senado.
No Senado, a derrota mais simbólica foi a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF. O advogado-geral da União recebeu 34 votos favoráveis, abaixo dos 41 necessários, e teve o nome barrado pelo plenário. Foi a primeira rejeição de um indicado ao Supremo em 132 anos.
A derrota ampliou a tensão entre Lula e Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado.
A fragilidade da articulação também ficou exposta na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O governo perdeu a presidência e a relatoria do colegiado para nomes da oposição.
Após o revés, Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, fez um mea-culpa e admitiu falha na articulação ao dizer que o “time entrou de salto alto” e subestimou os adversários.
Randolfe também enfrenta cobranças pela condução de sessões de vetos. Sob sua liderança, o governo viu o Congresso derrubar vetos importantes de Lula, inclusive trechos da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, em votações que reduziram a margem de controle do Executivo sobre o Orçamento.
Desafios do sucessor de Jaques
O sucessor de Jaques herdará uma pauta travada, uma interlocução difícil com Alcolumbre e a pressão para evitar novas derrotas antes do período eleitoral, quando o Congresso tende a ficar esvaziado.
Nos bastidores, a avaliação é que o novo líder precisará atuar em três frentes ao mesmo tempo: reconstruir pontes com o comando do Senado, mapear votos com mais antecedência e impedir que pautas de alto custo político ou fiscal avancem sem negociação com o Planalto.
A missão é considerada sensível porque o governo ainda tenta destravar propostas prioritárias, como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e o fim da escala 6×1, que seguem sem avanço sob o comando de Alcolumbre.
Além disso, o Planalto tenta evitar novas derrotas fiscais. No início de junho, o Senado avançou com três propostas que, juntas, podem causar impacto de cerca de R$ 215 bilhões para o governo. Uma delas é o projeto que autoriza o uso de recursos do Fundo Social do pré-sal para renegociar dívidas rurais. A equipe econômica estima impacto de R$ 140 bilhões para o Tesouro Nacional ao longo de 10 anos. O texto agora está na Câmara.
Fonte: metropoles.com/Maria Laura Giuliani