25 de setembro de 2026
Brasil

Flávio vai ao MPE contra fake news sobre Nossa Senhora Aparecida

Campanha prepara notícia-crime e mapeia perfis que espalharam a informação falsa/Foto: Vittor Sales/Divulgação Campanha Flávio Bolsonaro/Divulgação

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) prepara uma notícia-crime no Ministério Público Eleitoral (MPE) com pedido de investigação sobre a informação falsa que liga o candidato a um plano contra Nossa Senhora Aparecida.

A equipe jurídica do senador mapeia publicações no X, no Instagram e no Facebook em busca da origem do conteúdo, integrantes da campanha do candidato disseram que o objetivo é ingressar com uma notícia-crime no Ministério Público Eleitoral pedindo uma investigação.

A equipe deste site também confirmou que a campanha também faz uma varredura das contas que impulsionaram ou espalharam a informação.

Flávio reagiu ainda na quinta, com um vídeo gravado em Minas Gerais. “Estamos aqui na correria de agenda em Minas Gerais e sou surpreendido com uma mentira, uma fake news daquela, para variar, que a milícia do PT está inventando na internet: que eu iria tirar a padroeira do Brasil. Isso é uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto”, disse. Na legenda, escreveu: “Respeito todas as religiões e também quem não tem religião! Diferente do Lula, que quer se meter até nas regras da Igreja Católica. Deus no comando sempre!”

O boato circulou nas redes durante toda noite de ontem (24). No mesmo dia, um comentário na GloboNews deu escala ao caso. A emissora pediu desculpas na mesma madrugada. Um dos perfis de maior alcance no episódio não fez o mesmo. O comentarista Muka, gerente comissionado da EBC, mantém os posts no ar. Na manhã seguinte, ele voltou ao tema numa transmissão ao vivo.

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A base do boato é um projeto de 2007, rejeitado e arquivado pela Câmara no ano seguinte.

Flávio voltou a comentar o assunto nesta tarde (25), e nega ter discutido a retirada de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, classifica a informação como “fake news” e diz que Lula “vira cristão a cada quatro anos”.

Candidato do PL à Presidêncua afirmou que respeita “todas as regiões” e reforçou que “não é papel do Estado se meter na Igreja”.

Como a polêmica surgiu

A história começou nas redes, e não na televisão. No início da semana, bispos católicos da Amazônia divulgaram um vídeo com orientações para as eleições. No material, eles defendem a soberania do país e pedem voto em candidatos comprometidos com a democracia. Os dois temas aparecem com frequência no discurso da campanha de Lula (PT).

A tese se apoiou numa declaração do candidato feita há um mês. Em agosto, Flávio faltou ao debate da Band. Ele justificou a ausência com o argumento de que Lula também não estaria lá. “Eu quero debater com quem não acredita em Deus”, disse na época. No mesmo contexto, prometeu: “quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Flávio é evangélico e frequenta a Igreja Comunidade das Nações. A frase não menciona Nossa Senhora Aparecida.

Na quinta, o assunto cresceu ao longo do dia. Às 12h59, o perfil @da_cia publicou um alerta: “Perfis coordenados do PT estão espalhando que @FlavioBolsonaro estaria preparando uma retirada de Nossa Senhora de Aparecida como padroeira do Brasil.”

A reportagem não localizou o autor original das imagens e dos textos. A circulação inicial ocorreu em perfis de oposição ao candidato, com mensagens sobre um suposto ataque aos católicos.

O boato também não é novo. Em 2022, uma montagem atribuiu a mesma intenção a Jair Bolsonaro. Na época, agências de checagem mostraram que o projeto era de Galli, e não da família Bolsonaro.

O papel da GloboNews

O voto religioso pesa na reta final da campanha. Segundo o Datafolha, Lula lidera entre os católicos, com 45% contra 33%. Flávio lidera entre os evangélicos, com 47% contra 27%.

À noite, o tema chegou à TV. Por volta das 20h, no Em Pauta, a comentarista Maria Cristina Fernandes analisou pesquisas e o voto religioso. Ela falou de “um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos que está mobilizando um projeto de lei para tirar a condição de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira”. Em seguida, afirmou que o assunto “pode sim surtir efeito entre os católicos a favor do Lula”.

A comentarista não citou Flávio nem apontou o autor do projeto. Nas redes, porém, o trecho ganhou outra moldura. As publicações transformaram a análise em prova de um plano do candidato do PL.

Não havia projeto em mobilização. O único texto sobre o tema estava arquivado havia 18 anos.

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O recorte se espalhou em poucos minutos. Às 20h41, o perfil @CarlosPortoRJ publicou o vídeo com a legenda: “Eu custei a acreditar que Flávio Bolsonaro vai tirar Nossa senhora aparecida como padroeira do Brasil. Mas acabou de sair na GloboNews essa notícia.” O post passou de 2,5 milhões de visualizações.

As buscas por “Nossa Senhora Aparecida” no Google atingiram o maior nível em três meses. Na manhã de sexta, o tema estava entre os mais comentados do X.

Na madrugada de sexta, a apresentadora Marcelly Setúbal leu a correção na Edição da Meia-Noite. A emissora afirmou que a informação foi distorcida nas redes. A nota terminou com um pedido de desculpas: “Essa proposta foi apresentada em dezembro de 2007, mas arquivada pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados em agosto de 2008. Nós pedimos desculpas pelo erro.”

Flávio compartilhou a retratação no X: “Globo News se retratando pela MENTIRA de que haveria um ‘movimento’ para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O projeto SEQUER EXISTE! Fiquem espertos, pois a máfia do pt vai espalhar várias mentiras ao longo de todos os dias até as eleições.”

O papel de Muka

Murilo Ribeiro Pereira, o Muka, é gerente de Pauta da Gerência Executiva de Variedades da EBC, segundo o quadro oficial da estatal. A nomeação ocorreu em setembro de 2023, pela Portaria nº 824, assinada pelo então presidente da empresa, Jean Lima. Em janeiro de 2024, a Gazeta do Povo informou salário de R$ 17,8 mil. Muka também é debatedor do Sem Censura, na TV Brasil, colunista do Amado Mundo e apresentador do Corujão do Muka, no YouTube. No Amado Mundo, a biografia dele usa outro cargo: “diretor de conteúdo” do programa.

Muka publicou depois do Em Pauta. Às 22h12 de quinta, escreveu: “Muita gente estranhando o movimento de muitas lideranças do catolicismo nos últimos dias. Pois bem… ao que parece, a Igreja Católica se uniu para defender Nossa Senhora Aparecida desse projeto absurdo do Flávio Bolsonaro.”

A menção às “lideranças do catolicismo” remete ao vídeo dos bispos da Amazônia. O material trata de soberania e democracia. Na véspera, o presidente da CNBB, dom Jaime Spengler, havia dito que a Igreja não se manifesta sobre questões político-partidárias nem declara preferência por candidato.

Às 22h50, Muka publicou imagens do PL 2.623/2007: “Aqui está o projeto que tira de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Conforme noticiado, Flávio Bolsonaro estaria comprometido a implementar essa medida absurda. O autor do PL é Victorio Galli, candidato a deputado federal por MT.” O post somou cerca de 259 mil visualizações até a manhã de sexta, segundo o ICL Notícias.

O post não informa qual veículo noticiou o suposto compromisso. A reportagem não encontrou nenhuma publicação que sustente essa informação.

O jornalista Sam Pancher respondeu com o parecer da comissão: “Projeto rejeitado em 9 de Julho de 2008. Que loucura esse post.” Muka não corrigiu o conteúdo. Em vez disso, rebateu: “Sam, tudo bem? Não sei se você tem procuração para defender a extrema-direita. Mas fico feliz se você puder garantir que ninguém da campanha se comprometeu a reapresentar esse projeto em caso de vitória do candidato do PL.”

A resposta inverteu o ônus da prova. Quem fez a afirmação cobrou do outro a prova do contrário.

Em outro post, Muka admitiu o arquivamento, mas manteve a suspeita: “O fato de um projeto ter sido arquivado não impede que ele volte a ser apresentado futuramente. Basta reler os tuítes anteriores, analisar os tempos verbais e refletir sobre o que dizem. Mas, para isso, é preciso ter boa fé para interpretar o contexto eleitoral.”

A tese mudou. Primeiro, Flávio “estaria comprometido a implementar” a medida. Depois, o projeto apenas poderia voltar um dia. O post com a primeira versão segue publicado.

Muka ainda fez uma live com o título “BOMBA: FLÁVIO BOLSONARO E O PROJETO CONTRA NOSSA SENHORA APARECIDA; MENSAGENS PARA VORCARO E MAIS!”, publicada meia noite de hoje (25)

Na manhã de sexta, horas após a correção da GloboNews, o Amado Mundo anunciou: “AGORA: Muka explica a polêmica entre Flávio Bolsonaro e a Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.” O programa Matinal foi ao ar por volta das 9h. A tarja na tela dizia “Entenda polêmica entre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora”. Outro trecho trazia a pergunta “Polêmica entre Flávio e Nossa Senhora pode impactar campanha?”.

O que diz a lei

A Lei 9.504/1997 lista condutas proibidas a agentes públicos em período eleitoral. O artigo 73, inciso III, veda “ceder servidor público ou empregado da administração direta ou indireta federal, estadual ou municipal do Poder Executivo, ou usar de seus serviços, para comitês de campanha eleitoral de candidato, partido político ou coligação, durante o horário de expediente normal, salvo se o servidor ou empregado estiver licenciado”.

A regra trata de comitês de campanha e de horário de expediente. O Amado Mundo é um veículo de mídia, e não um comitê. Os posts de Muka no X saíram à noite. O Matinal, porém, foi ao ar numa manhã de sexta, dia útil. A jornada contratual dele na EBC não é pública.

Há ainda a Constituição. O artigo 37 impõe à administração pública, direta e indireta, os princípios da impessoalidade e da moralidade. A EBC é uma empresa pública federal.

A própria estatal adota cautela com o calendário eleitoral. A EBC retirou do ar cerca de 146 mil conteúdos publicados desde 2023. A presidente da empresa, Antonia Pellegrino, chamou a medida de “uma posição conservadora de alinhamento com as regras do TSE”. Páginas da Agência Brasil exibem o aviso: “Em respeito à legislação eleitoral vigente, esta página está desativada temporariamente.” Uma delas tratava da participação de Lula no Sem Censura, programa em que Muka atua como debatedor.

Fonte: claudiodantas.com.br/Por Mariana Albuquerque

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