Terras-raras: compra de mineradora em MG ocorre 15 dias após sanção da Política de Minerais Críticos
Meteoric Resources tem projeto de terras-raras no Sul de Minas considerado de alto potencialFoto: Cristiano Machado / Imprensa MG
Operação de R$ 3,5 bilhões avaliada pelo mercado une a gigante australiana de terras-raras ao potencial mineral do Sul mineiro
A mineradora australiana Lynas Rare Earths Limited, considerada uma das principais produtoras globais de terras-raras, anunciou um acordo vinculante para a aquisição de 100% das ações da sua conterrânea, a Meteoric Resources Limited, que desenvolve o Projeto Caldeira de Terras Raras, no município de Caldas, no Sul de Minas Gerais. O negócio de R$ 3,5 bilhões foi fechado justamente no início de um novo momento da mineração brasileira.
O acordo foi anunciado nessa quarta-feira (30/9), 15 dias após a sanção da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A operação entre as duas mineradoras australianas será conduzida por meio de um scheme of arrangement, modalidade de transação formal prevista na legislação societária da Austrália.
O Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), afirmou que o anúncio da operação é um grande marco e “uma virada de chave” na mineração nacional, ao representar um grande passo para avançar nas diferentes etapas das cadeias produtivas das terras-raras, como o processamento. “Esse investimento é uma prova de que a nossa Política Nacional, sancionada pelo presidente Lula, é importante para que nossas riquezas fortaleçam a capacidade industrial e tecnológica brasileira, gerando emprego e desenvolvimento”, disse.
A Lynas opera na Austrália e na Malásia e tem mais de 15 anos de atuação na mineração e separação desses materiais para mercados internacionais. Atualmente, a companhia é a única produtora comercial de separação de óxidos de terras-raras leves e pesadas fora da China.
Escala global e impacto estratégico
O Projeto Caldeira abriga o maior recurso mineral conhecido de óxidos de terras raras em argilas iônicas – que contém elementos leves e pesados – fora da China, conforme o Código JORC. O empreendimento concluiu recentemente seu Estudo de Viabilidade Definitivo (DFS), consolidando uma fase técnica crucial.
A incorporação do projeto mineiro representa para a Lynas um acréscimo de 79% em seus Recursos Minerais existentes e de 26% em suas Reservas de Minério. Os recursos do Projeto Caldeira contêm cerca de 802 mil toneladas de NdPr (neodímio e praseodímio) e 41 mil toneladas de DyTb (disprósio e térbio).
Os dois insumos são vitais para tecnologias de ponta, como ímãs permanentes de alta performance, usados em veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos e outras tecnologias.
Leia mais. Justiça determina arresto de ações da Itaminas em processo sobre R$ 401 mi pagos à fatia de Vorcaro
Do ponto de vista financeiro, a transação garante ao Projeto Caldeira um suporte robusto. A Lynas informa que, em junho deste ano, registrava aproximadamente 1,2 bilhão de dólares australianos (A$) – cerca de R$ 4,3 bilhões – em caixa e depósitos de curto prazo.
Como parte do acordo, a Lynas concordou em disponibilizar à Meteoric uma linha de financiamento interina de até A$ 110 milhões (quase R$ 400 milhões), destinada à continuidade do desenvolvimento do Projeto Caldeira, aos custos relacionados à implementação da transação e às necessidades de capital de giro durante o processo.
Agregação de valor e diálogo com governo federal
Um dos pilares estratégicos do acordo é o estímulo ao desenvolvimento de competências locais. A Lynas pretende avaliar o potencial para implantar atividades de separação de terras-raras no Brasil, com o fomento de etapas avançadas de processamento, inovação e transferência de tecnologia no país.
No âmbito da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, representantes de Lynas e da Meteoric iniciaram diálogos com o governo brasileiro, para apresentar os benefícios da fusão e alinhar o projeto às diretrizes nacionais de fortalecimento de cadeias produtivas e conformidade regulatória.
Próximos passos
Nos termos do acordo, a operação ocorrerá integralmente em ações, com os acionistas da Meteoric recebendo títulos da Lynas conforme a relação de troca estipulada.
O Conselho de Administração da Meteoric recomendou de forma unânime que os acionistas aprovem a transação, sob a ressalva da inexistência de propostas superiores e da chancela de um especialista independente, atestando que o scheme of arrangement atende aos melhores interesses dos acionistas da companhia.
A efetivação da compra ainda depende de condições e aprovações previstas no acordo, incluindo o aval dos acionistas da Meteoric, além de aprovações judiciais e regulatórias na Austrália e no Brasil. Ambas as empresas se comprometeram a manter o mercado e os stakeholders atualizados sobre o andamento das etapas seguintes.
Fonte: otempo.com.br/Por Marco Aurélio Neves