Sem apoio do Centrão, PT e PL chegam a convenções com coligações encolhidas
O senador Flávio Bolsonaro (PL), à esquerda; o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), à direita • Ricardo Stuckert/PR e Agência Senado
Legendas de centro optam por fortalecer bancadas e fugir de polarização; PL perdeu apoio de PP e Republicanos, enquanto PT falhou em renovar alianças com Solidariedade e Avante
Partidos do centrão têm consolidado a intenção de adotar uma estratégia de neutralidade no primeiro turno. As legendas de centro buscam se distanciar da polarização entre PT e PL, que devem ter coligações menores na comparação com 2022.
Apesar de haver um postulante do próprio centrão, as siglas do grupo também não abraçaram a pré-candidatura de Ronaldo Caiado, do PSD. Em vez de se envolver diretamente na disputa nacional, a prioridade do centrão é fortalecer as bancadas da Câmara e do Senado.
Para isso, os partidos evitam estar vinculados a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou a Flávio Bolsonaro (PL). Os dois pré-candidatos à Presidência são os nomes com mais apoio nas pesquisas eleitorais e também com as maiores rejeições.
Na última semana, a cúpula da federação formada por PP e União Brasil decidiu não estar em nenhum palanque nacional. O Republicanos e o Podemos também caminham para uma posição de neutralidade, como mostrou a CNN.
O cenário é diferente de 2022. Naquela ocasião, Jair Bolsonaro (PL) recebeu o apoio formal de PP e Republicanos antes das convenções – algo que não deve se repetir neste ano. Na época, Lula teve o endosso de uma frente de centro esquerda. Agora, sua aliança perdeu o Avante e o Solidariedade.
O Prós, que esteve com o petista em 2022, foi incorporado pelo Solidariedade e é outra baixa.
O número menor de alianças, no entanto, tem mais peso para Flávio, que mirava o apoio do centrão para ampliar o seu tempo nas propagandas de TV e rádio.
O tempo de propaganda é calculado conforme o número de representantes eleitos no Congresso nas últimas eleições. Hoje, a federação entre União Brasil e PP deve liderar com cerca de 20,78% do tempo de propaganda.
Do lado de Lula, que tem apoio da federação formada por PT, PC do B e PV, obteve o endosso do PSB, PDT e da federação PSOL-Rede.
É a primeira vez em 12 anos que o PDT apoiará um presidenciável petista já no 1° turno. A última vez foi em 2014, quando a legenda esteve na coligação de Dilma Rousseff, que conquistou a reeleição naquele ano. Nos últimos dois pleitos, a sigla apresentou Ciro Gomes como candidato.
Centrão mira bancadas
Partidos de centro focam em repetir o desempenho das eleições municipais de 2024, quando o centrão conseguiu eleger prefeitos para comandar 63% das cidades brasileiras.
Com número alto de vereadores e prefeitos, o grupo tem capilaridade eleitoral e potencial para mobilizar votos nos municípios. Por esse motivo, a força política continuará e terá mais peso no 2° turno.
Por fisiologia política, o centrão é conhecido por adotar postura pragmática e aderir aos mais diferentes governos. A neutralidade, portanto, é estratégica para manter em aberto a possibilidade de negociação com o futuro presidente eleito, seja qual for o resultado.
Na gestão Lula 3, por exemplo, PP, Republicanos, PSD e MDB indicaram ministros para chefiar pastas na Esplanada e fizeram parte da gestão petista. Isto ocorreu mesmo depois de apoiarem Bolsonaro ou defenderem neutralidade no pleito de 2022.
A presença de políticos do centrão na Esplanada não garantiu ao governo uma base consolidada no Congresso. O Planalto também não conseguiu apoio de siglas do centrão na disputa pela reeleição de Lula.
PL vive impasses
A escolha de Flávio Bolsonaro como herdeiro do espólio político de Jair Bolsonaro foi anunciada em dezembro de 2025. Na época, a direita planejava ter um nome forte e que atraísse o centrão. O cálculo político incluía uma coligação ampla, grande tempo de propaganda eleitoral no rádio e TV e emprego da capilaridade de prefeitos e vereadores para pedir votos.
Este objetivo parecia viável enquanto o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), estava cotado para representar a direita. Com a indicação de Flávio, a tendência se esvaziou e os partidos de centro passaram a sinalizar pela neutralidade.
O PL não teve apoios formalizados e ainda tenta atrair o Republicanos. A tarefa ficou mais complicada porque, nos últimos meses, Flávio protagonizou atritos com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, teve o vazamento de uma troca de mensagens com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e foi culpado por governistas pelo tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos a produtos do Brasil.
Apesar das dificuldades de alianças nacionais, Flávio tem o apoio de Javier Milei, presidente da Argentina, e a simpatia do governo de Donald Trump.
PT e a frente ampla
Com as baixas de Avante, Solidariedade e Prós, a pré-campanha de Lula também enfrenta cenário menos favorável neste ano. A frente ampla da última corrida presidencial não deve se repetir.
Nas últimas eleições, Lula teve ainda vantagem por conquistar o apoio de nomes da sociedade civil, do mercado financeiro e da classe artística – endosso que foi negociado ainda na época das convenções e consolidado no segundo turno. Não há sinais de que o cenário vai se repetir neste ano.
À CNN, o ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, afirmou que existia uma frente ampla pela democracia em 2022. Agora, aliados de Lula querem construir uma frente ampla em prol da soberania, tema recorrente em discursos recentes de Lula e aliados do governo ante os atritos com os Estados Unidos.
Terceira via
Para vencer a polarização, os demais candidatos têm se apresentado como uma “terceira via”. O ex-governador Ronaldo Caiado era filiado ao União Brasil, não obteve respaldo interno para a disputa ao Planalto e, filiou-se ao PSD. O vice na sua chapa será o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab.
Na quinta-feira (23), em reunião com prefeitos de Goiás, Caiado afirmou que vai pedir apoio do PP e do União Brasil para sua candidatura, após as duas siglas terem declarado neutralidade.
A terceira via também tem como postulante o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), de perfil mais alinhado a centro-direita. O pré-candidato ainda não definiu um vice para a chapa.
Outro nome candidato na corrida presidencial é o de Renan Santos, do Missão. Apesar de criticar o bolsonarismo e o petismo, ele se apresenta como um “outsider” da política do que como um nome da terceira via.
Fonte: cnnbrasil.com.br/Emilly Behnke e Lorenzo Santiago, da CNN Brasil