Fora de controle: como mais de 200 mil javalis viraram uma ameaça bilionária ao agronegócio catarinense
O Oeste e o Meio-Oeste de SC estão entre as áreas com maior presença de javalis, espécie invasora que ameaça plantações e criações.Foto: Magnific/ND Mais
Com presença estimada em 236 municípios, javalis ameaçam lavouras e a suinocultura, especialmente no Oeste e Meio-Oeste de SC, e acendem alerta para riscos sanitários e às exportações
A presença de mais de 200 mil javalis em Santa Catarina acende um alerta para o agronegócio, a preservação ambiental e a segurança no meio rural. Espalhados por 236 municípios, segundo estimativa apresentada pela Faesc (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina), os animais avançam sobre lavouras, provocam prejuízos as propriedades e representam um risco sanitário para uma das principais cadeias produtivas catarinenses: a suinocultura.
O tamanho da população estimada, a capacidade de reprodução e a dificuldade de conter a espécie invasora ajudam a explicar por que o problema preocupa produtores e entidades do setor. Mesmo após o abate de mais de 120 mil javalis entre 2019 e 2024, a quantidade de animais continua elevada, de acordo com a entidade.
A Faesc defende mudanças nas regras de manejo, com menos entraves burocráticos para os controladores autorizados e maior articulação entre os governos e o setor produtivo.
A preocupação vai além dos danos já registrados nas propriedades: uma eventual disseminação de doenças para os rebanhos comerciais poderia comprometer mercados e provocar perdas expressivas para a economia estadual.
Os animais se espalham por cerca de 80% dos municípios catarinenses e preocupam produtores rurais.Foto: Freepik/Reprodução/ ND Mais
Javalis destroem lavouras e avançam sobre propriedades
A infestação atinge diferentes regiões de Santa Catarina, com maior incidência na Serra, no Meio-Oeste e no Oeste. Entre os municípios citados pela Faesc estão Lages, Campos Novos, Capão Alto, São Joaquim, Campo Belo do Sul, Água Doce e Bom Jardim da Serra. Também há presença de animais no entorno do Parque Nacional das Araucárias, entre Ponte Serrada e Passos Maia.
Os prejuízos alcançam plantações de milho, feijão, soja, trigo, pastagens e hortaliças, além de criatórios de aves e suínos. Segundo as informações divulgadas pela entidade, grupos que podem chegar a 50 animais avançam sobre propriedades, áreas urbanas e rodovias, especialmente quando há escassez de alimento nas matas.
A capacidade de reprodução contribui para agravar o cenário. As fêmeas podem ter, em média, duas ninhadas por ano, com cerca de oito filhotes em cada uma. Sem predadores naturais em quantidade suficiente e com grande capacidade de adaptação, os javalis se espalham com facilidade.
Outro fator que dificulta o controle é o cruzamento com porcos domésticos, que dá origem aos chamados javaporcos. Esses híbridos também fazem parte do problema relacionado à expansão da espécie invasora.
O cruzamento com porcos domésticos dá origem aos chamados javaporcos, que dificultam ainda mais o controle.Foto: Google Imagens/ND Mais
Os impactos não se limitam às plantações. A Faesc relata situações em que pessoas foram acuadas ou perseguidas durante ações de controle, além de casos de cães mortos nessas operações.
Machos adultos podem alcançar cerca de 200 quilos e representar perigo quando se sentem ameaçados.
Risco sanitário ameaça a força da suinocultura catarinense
Além dos prejuízos diretos, a preocupação envolve doenças que podem afetar a produção animal. Javalis podem atuar na disseminação de enfermidades como a peste suína africana (PSA), a peste suína clássica (PSC) e a febre aftosa.
O risco preocupa especialmente em Santa Catarina, que tem papel estratégico no mercado agropecuário brasileiro. Apesar de ocupar apenas 1,12% do território nacional, o estado lidera a produção e a exportação de carne suína do país, é o segundo maior produtor de frangos e o terceiro maior produtor de leite, conforme os dados apresentados pela Faesc.
Uma eventual introdução dessas doenças nos plantéis comerciais poderia gerar consequências que ultrapassam as propriedades atingidas. Além das perdas para os produtores e as agroindústrias, ocorrências sanitárias podem provocar restrições comerciais e afetar as exportações.
Santa Catarina possui reconhecimento internacional como zona livre de febre aftosa sem vacinação desde 2007 e também mantém o status de livre de peste suína clássica. A proteção sanitária é estratégica para a competitividade da produção estadual, o que aumenta a preocupação com a circulação de javalis.
A Faesc alerta que uma contaminação dos rebanhos comerciais poderia causar prejuízos expressivos à cadeia produtiva e à economia catarinense.
Até o momento, porém, as informações apresentadas pela entidade apontam um risco sanitário associado à espécie, e não a confirmação de que esses animais estejam contaminados no estado.
Mais de 120 mil javalis foram abatidos em Santa Catarina entre 2019 e 2024, mas a população estimada continua elevada.Foto: Reprodução/ND Mais
Mais de 120 mil animais abatidos, mas problema persiste
Entre 2019 e 2024, mais de 120 mil javalis foram abatidos em Santa Catarina. Apesar desse volume, a estimativa de mais de 200 mil animais evidencia o desafio de conter a expansão da espécie.
O controle populacional é permitido, mas depende de pessoas registradas e autorizadas, equipes preparadas e procedimentos que possam ser executados com segurança.
A Faesc aponta dificuldades para obter licenças, demora na emissão de documentos — como guias de tráfego e autorizações de caça — e excesso de burocracia no sistema nacional.
Esses obstáculos, somados aos riscos das operações e à falta de profissionais habilitados, dificultam a participação dos produtores no manejo. Em algumas situações, eles recorrem à Polícia Militar Ambiental para lidar com a presença dos animais nas propriedades.
Mdo e Assembleia Legislativa discutem formas de aperfeiçoar os procedimentos.
Em âmbito nacional, o Ibama e o Ministério da Agricultura conduzem pesquisas e monitoramentos relacionados ao tema.
Lei estadual autoriza manejo e entidade cobra mudanças federais
Santa Catarina já possui legislação específica para enfrentar o problema. A Lei estadual nº 18.817/2023, sancionada pelo governador Jorginho Mello, autorizou o controle populacional e o manejo sustentável do javali e de seus híbridos.
A Lei estadual nº 18.817/2023 autorizou o controle populacional e o manejo sustentável do javali e de seus híbridos.Foto: Reprodução/ND Mais
Para a Faesc, porém, é necessário avançar também nas normas federais. A entidade defende que a Câmara dos Deputados discuta regras gerais que permitam aos estados adotar medidas compatíveis com a realidade de cada região, sem comprometer a fiscalização, a segurança dos controladores e a proteção ambiental.
A proposta inclui simplificar procedimentos para quem atua legalmente no manejo, fortalecer as equipes autorizadas e ampliar a cooperação entre o poder público e o setor produtivo.
A federação sustenta que a proliferação dos javalis deixou de ser uma preocupação restrita ao campo. Os impactos sobre a produção agropecuária, a biodiversidade, a segurança das pessoas e a sanidade dos rebanhos tornam o controle da espécie um desafio econômico e ambiental para Santa Catarina.
Com uma população estimada ainda elevada, os resultados das ações de manejo e a capacidade de tornar os procedimentos mais ágeis devem ser determinantes para conter o avanço dos animais e reduzir os riscos ao agronegócio catarinense.
Fonte: ndmais.com.br
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