21 de setembro de 2026
Cotidiano

Empresários do INSS citam ex-ministro em acordos suspeitos, diz jornal

O ex-ministro do Trabalho e Previdência do governo Jair Bolsonaro (PL), José Carlos Oliveira, também conhecido como Ahmed Mohamad, foi alvo de medidas cautelares na nova fase da Operação Sem Desconto, deflagrada nesta quinta-feira (13) pela Polícia Federal. Foto: Reprodução

Gravações mostram grupo mencionando José Carlos de Oliveira na articulação de entidades investigadas pela PF

Em gravações obtidas pelo Estadão, alvos da Polícia Federal pela fraude bilionária contra aposentados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) relataram como foram as tratativas com o ex-ministro da Previdência, José Carlos de Oliveira (PSD) para operar entidades envolvidas no esquema.

As imagens foram registradas em 22 de maio de 2025, cerca de um mês após a Operação Sem Desconto, que apurou descontos indevidos sobre aposentadorias. Segundo a investigação, sindicatos e associações que mantinham acordos com o INSS para oferecer serviços a aposentados teriam realizado cobranças sobre benefícios de pessoas que não autorizaram a filiação.

O material mostra Anderson Cordeiro de Vasconcelos e Igor Dias Delecrode, integrantes do grupo apelidado de “golden boys”, conversando sobre as associações que controlavam. As quatro entidades eram formalmente presididas por integrantes do grupo.

Em um dos trechos, Delecrode atribui ao pai de Felipe Macedo Gomes, Wilson Roberto Gomes, a obtenção do primeiro acordo para que a Amar Brasil Clube de Benefícios pudesse operar. “O Felipe, ele sempre bateu no peito dele que conseguiu fazer o negócio sozinho, sem ajuda de ninguém. Agora, você falou o que levou do pai dele? ‘Eu que consegui o negócio para vocês, eu que sentei lá com o Oliveira, eu que disse que podia acreditar em vocês’”, afirmou.

Anderson concordou com o relato e citou outra frase atribuída a Wilson Gomes: “Faz pro meu filho como se fosse pra mim”. Na sequência, afirmou: “Eu não sabia de nada disso, nem que ia dar um helicóptero pro “big boss”.” O diálogo não esclarece quem seria o chamado “big boss”.

Segundo as investigações, as associações ligadas ao grupo movimentaram mais de R$ 700 milhões. Uma delas, a Amar Brasil Clube de Benefícios, faturou R$ 324 milhões entre 2021 e 2025. Outros três acordos foram obtidos para entidades que, juntas, receberam outros R$ 376 milhões durante o governo Lula.

Quebras de sigilo bancário também identificaram uma transferência de R$ 8 mil de Felipe Macedo Gomes para José Carlos de Oliveira. A relação entre o ex-ministro e os integrantes do grupo continua sob investigação.

Como funcionava o esquema

As entidades investigadas dependiam de Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com o INSS para realizar descontos diretamente nos benefícios dos aposentados. Em troca, ofereciam serviços como seguros e planos de saúde.

Segundo dados da Controladoria-Geral da União (CGU), 98% dos aposentados analisados não haviam autorizado os descontos. Parte deles sequer tinha conhecimento das associações que apareciam vinculadas aos benefícios.

A investigação também aponta que mais de R$ 100 milhões recebidos por entidades ligadas aos “golden boys” foram direcionados a empresas de Américo Monte Jr., Felipe Macedo Gomes, Anderson Cordeiro e Igor Dias. Parte dos recursos também teria sido transferida a parentes dos empresários.

Empresas ligadas ao grupo ainda mantiveram contratos com Eric Fidelis, filho do ex-diretor de Benefícios do INSS André Fidelis, e com Thaissa Hoffmann, mulher do ex-procurador-geral do INSS Virgílio Oliveira. Ambos foram presos na Operação Sem Desconto.

Relação com José Carlos de Oliveira

José Carlos de Oliveira foi presidente do INSS e ministro do Trabalho e Previdência. Ele foi indiciado pela Polícia Federal sob suspeita de receber propina da Conafer, outra entidade investigada no esquema. O inquérito sobre os “golden boys” ainda estava em fase final, sem relatório apresentado até a publicação do material.

A defesa do ex-ministro nega qualquer relação profissional ou particular com os empresários. “as afirmações feitas são infundadas, uma vez que nunca manteve relacionamento particular ou profissional com os mencionados”.

Sobre os ACTs, Oliveira afirmou: “Sobre o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado entre o INSS e qualquer entidade representativa, importa destacar, uma vez mais, que o ex-ministro não tinha qualquer ingerência no processo de celebração dos referidos instrumentos. Os ACTs celebrados pelo INSS seguem critérios rigorosamente técnicos, administrativos e jurídicos, observando fluxos internos de análise e aprovação conduzidos pelas áreas competentes da autarquia, sem interferência pessoal ou política”.

O ex-ministro também negou ter atuado para aprovar acordos entre o INSS e as entidades investigadas. “Por fim, importante reiterar que não procede qualquer afirmação de que o ex-ministro José Carlos Oliveira tenha atuado para aprovação deste ou qualquer outro ACT junto ao INSS”, disse.

Defesas contestam gravações

Os advogados de Anderson, Igor e Felipe afirmaram desconhecer os vídeos e questionaram a origem das gravações. “desconhecem a existência, a autenticidade e a integridade dos vídeos em questão”.

A defesa acrescentou que, “se eventualmente existentes”, os vídeos “foram obtidos de maneira ilícita e criminosa”.

Os empresários estão monitorados por tornozeleira eletrônica por determinação do ministro André Mendonça. A medida foi imposta em abril de 2026, após pedido da Polícia Federal.

Fonte: claudiodantas.com.br/Por Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *