25 de setembro de 2026
Brasil

Mensagens ligam Lulinha, Roberta e Marcola a contrato da Unigel com a Petrobras

Roberta Luchsinger, Lulinha e Marcola. Foto: Reprodução/Instagram, Edilson Dantas/O Globo e Evaristo Sá/AFP

PF apura atuação de filho de Lula, lobista e ex-chefe de gabinete do Planalto em negociação que previa salvar fabricante de fertilizantes

Mensagens apreendidas pela Polícia Federal (PF) mostram que Fábio Luís da Silva, o Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, atuaram em articulações para viabilizar um acordo entre a fabricante de fertilizantes Unigel e a Petrobras. A apuração está em um inquérito sigiloso sob relatoria do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). As informações são do jornal O Globo.

A investigação aponta que Roberta negociou com Leo Slezynger, diretor da Unigel, um contrato de consultoria para ajudar a empresa a fechar com a Petrobras um acordo que permitisse a retomada das operações de fábricas de fertilizantes. Uma segunda etapa previa a busca de financiamento de R$ 500 milhões junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Entre março de 2023 e julho de 2024, Leo teria repassado R$ 1,26 milhão à lobista, segundo a investigação. As mensagens também mostram contatos diretos entre Lulinha e o executivo da Unigel.

Um dos diálogos aponta que Roberta chegou a sugerir a Leo que Lulinha fosse colocado como conselheiro de um fundo ligado à empresa, com remuneração, como estratégia para aproximar o empresário do presidente Lula (PT).

“Isso que vc tem q fazer. Dar ele o que faz o olho dele brilhar. Chama p o conselho. Paga um salário de conselheiro. Faz ele atuar para você. Você acha o pai dele vai querer beneficiar qual fundo? O que o filho é conselheiro e que recebe por isso. Funciona assim… toma lá, dá cá”, escreveu Roberta em 20 de abril de 2023.

‘Funciona assim… toma lá, da cá’, escreveu Roberta Luchsinger ao propor a diretor da Unigel a contratação de Fábio Luís da Silva, o Lulinha, como conselheiro de fundo da empresa. Foto: Reprodução/ O Globo.

Leo aceitou a ideia e enviou a Roberta uma mensagem atribuída a Lulinha: “Estamos juntos meu amigo. Domingo agora vou pra Portugal e volto no outro sábado. Pode marcar quando vc quiser”.

Pressão sobre a Petrobras

A Unigel havia arrendado da Petrobras duas fábricas de fertilizantes, na Bahia e em Sergipe. Com dificuldades financeiras, a empresa passou a defender um modelo chamado tolling, pelo qual a Petrobras forneceria gás e receberia fertilizantes em contrapartida.

O acordo enfrentava resistência dentro da estatal. A área técnica avaliava que as condições poderiam gerar prejuízo à Petrobras, enquanto a Unigel buscava uma solução para manter as unidades em funcionamento.

As mensagens mostram Roberta acionando Marcola, então chefe de gabinete de Lula, para tratar do assunto. Em novembro de 2023, ela pediu que ele falasse com o então ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.

“Se vc puder depois dar um toque no ministro Alexandre”, escreveu a lobista.

Marcola respondeu: “Eu tenho hj reuniao com o alexandre 14h30. ja combinei com ele. pois o pr fala com ele 15h”.

“Pede [a] ele pra falar da Unigel”, respondeu Roberta.

A negociação avançou e, em 29 de dezembro de 2023, Petrobras e Unigel assinaram o contrato de tolling.

Pouco depois, Leo agradeceu a Lulinha pelo que chamou de “apoio”: “Bom dia amigo. Gostaria de agradecer seu apoio. Ontem assinamos o tolling… Estamos juntos… Vamos em frente com mais conquistas em 2024… Grande abraço… Boas festas”.

Por orientação de Roberta Luchsinger, o diretor da Unigel, Leo Slezynger agradece a Lulinha pelo ‘seu apoio’ após Petrobras assinar contrato de tolling com a Unigel; Slezynger enviou print de conversa com o filho do presidente Lula à lobista. Foto: Reprodução/ O Globo

Em outra conversa, Roberta afirmou que a assinatura havia ocorrido graças à atuação do grupo e cobrou novos pagamentos da empresa.

“Sem a gente não teria tolling… e sem a gente tb não vai ter a segunda parte. Vc sabe como foi difícil”, escreveu.

Marcola acionou ministro

As mensagens também mostram que Marcola participou das articulações enquanto ocupava a chefia de gabinete da Presidência da República.

Em determinado momento, Roberta encaminhou a ele uma reclamação de Leo sobre as dificuldades nas negociações com a Petrobras. O então chefe de gabinete se comprometeu a tratar do tema com integrantes do governo.

Em outubro de 2023, Marcola relatou à lobista que estava “jogando duro” com a Petrobras.

Depois de um confronto entre Leo Slezynger e Jean Paul Prates, então presidente da Petrobras, Roberta encaminhou os diálogos para Marcola. O executivo da Unigel havia reclamado das exigências da estatal e cobrado uma solução.

Prates, por sua vez, respondeu que não colocaria “meu pescoço a prêmio” para atender aos interesses da empresa e afirmou que não tinha obrigação de “ajudar” ninguém.

Pouco mais de uma semana depois, Roberta voltou a pedir a atuação de Marcola junto ao Ministério de Minas e Energia.

O ministro Alexandre Silveira nega que tenha recebido pedido de interferência de Marcola. Em nota, a pasta afirmou que o ex-chefe de gabinete acionava o ministro apenas para tratar de agendas “estritamente republicanas e institucionais”.

Contrato acabou questionado

Apesar da articulação, o acordo não se sustentou. Em fevereiro de 2024, área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que o modelo de tolling poderia provocar prejuízo de R$ 487 milhões à Petrobras. Posteriormente, outro relatório técnico identificou irregularidades no contrato.

A nova administração da Petrobras, comandada por Magda Chambriard, não renovou o acordo com a Unigel. A empresa posteriormente recorreu à arbitragem e, em 2025, Petrobras e Unigel encerraram as controvérsias contratuais sem indenização de uma parte à outra.

A Unigel entrou posteriormente em recuperação judicial.

A investigação da PF também aponta que Roberta pretendia atuar em uma segunda etapa do negócio, relacionada a um financiamento de R$ 500 milhões junto ao BNDES. O contrato de consultoria previa R$ 100 mil e poderia chegar a R$ 25 milhões caso o financiamento fosse obtido.

Defesas negam irregularidades

A defesa de Lulinha afirmou que não teve acesso ao procedimento e que não comentaria “alegações não verificadas”. Também classificou o vazamento de informações sigilosas como criminoso e criticou o uso de elementos de investigação antes de sua validação judicial.

Os advogados de Roberta Luchsinger também atribuíram a divulgação das mensagens a “vazamentos criminosos” e afirmaram que o material teria sido divulgado às vésperas de uma eleição para produzir efeitos políticos.

A defesa de Marcola disse que ele não intermediou negociações nem encaminhou documentos referentes a compras ou licitações públicas. Segundo os advogados, sua função como chefe de gabinete era organizar agendas e encaminhar demandas recebidas pela Presidência.

A Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirmou que Lula não recebeu de nenhuma das pessoas citadas qualquer demanda relacionada ao contrato e que não participou nem interferiu nas negociações entre Petrobras e Unigel.

A Petrobras também negou ter tratado do assunto com Roberta, Lulinha ou Marcola e afirmou que as negociações seguiram as regras internas de governança e a legislação aplicável.

A Unigel declarou que jamais manteve relação contratual com Roberta Luchsinger ou com empresa ligada a ela. A companhia afirmou ainda que o acordo com a Petrobras seguiu os trâmites legais e foi submetido às instâncias competentes.

O Ministério de Minas e Energia afirmou que Alexandre Silveira jamais foi abordado por Marcola para solicitar interferência em assuntos sob responsabilidade da pasta.

Fonte: claudiodantas.com.br/Por Redação

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