Flávio, Lula e Caiado investem em agendas com aceno ao eleitorado feminino

Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Lula • CNN

Mesmo com o anúncio de ações voltadas às mulheres, atual presidente enfrenta críticas devido à falta de representatividade no governo e o aumento da violência no país; adversários apostam na possibilidade de indicar uma mulher como vice

De olho em um dos eleitorados mais disputados da política brasileira, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) têm apostado em agendas e iniciativas voltadas às mulheres. O movimento ocorre em meio à busca por ampliar apoio entre o público feminino, considerado estratégico nas disputas eleitorais, em meio à disputa pelo Palácio do Planalto.

Nas eleições de 2022, o voto do eleitorado feminino foi essencial para a vitória de Lula. No entanto, o alcance do petista a esse público corre risco em meio a um cenário de aumento da violência contra as mulheres em todo o país. Em 2025, o Brasil registrou um número recorde de feminicídios.

É esse contexto que Flávio e o PL (Partido Liberal) pretendem utilizar na estratégia de campanha rumo à Presidência. Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o senador tem adotado um posicionamento “antifeminicídio” e de defesa das mulheres em seus discursos.

Durante manifestação da direita na Avenida Paulista em março, Flávio afirmou que as mulheres “eram protegidas” no governo Bolsonaro e que serão “abraçadas” pela sua gestão caso ele seja eleito chefe do Executivo em outubro deste ano. 

Somado a isso, o herdeiro do bolsonarismo também tem se valido de críticas ao governo petista. Flávio vem batendo na tecla de que Lula, apesar do discurso de defesa de maior participação feminina nas variadas esferas da sociedade, só indicou homens para cadeiras no TCU (Tribunal de Contas da União) e no STF (Supremo Tribunal Federal).

Nesta semana, o senador fez o PL indicar a deputada federal Soraya Santos (PL-RJ) para o posto vago no TCU. Para isso, ele abandonou a candidatura do deputado Hélio Lopes, também conhecido como “Hélio Bolsonaro”, aliado antigo de seu pai.

Flávio já disse que declarou seu apoio a Soraya por ela ser mulher e que tem causado incômodo o fato de que, entre os integrantes atuais do TCU, não há ninguém do sexo feminino.

O senador tem criticado o PT (Partido dos Trabalhadores), do presidente Lula, por supostamente descumprir a promessa de colocar mulheres em posições de poder. No caso da disputa pela cadeira do TCU, o nome indicado pela sigla é o de um homem: o deputado Odair Cunha (PT-MG).

Outros integrantes do PL também reforçam as críticas ao PT e a Lula. Em 2024, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) apenas “usou” as mulheres para subir a rampa do Palácio do Planalto quando tomou posse pela terceira vez.

Como mais uma estratégia da pré-campanha direcionada ao público feminino, Flávio também afirmou que gostaria que o nome para concorrer como vice na sua chapa fosse o de uma mulher. Um dos nomes cotados é o da senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra de Bolsonaro, a quem o senador teceu elogios nesta semana. Segundo Flávio, a parlamentar é um “sonho de consumo”.

Pacto contra feminicídio

Enquanto sofre críticas da oposição pelo cenário de violência contra as mulheres nos últimos meses no país e pela maior presença masculina nas suas indicações em postos de poder, Lula também tem feito acenos ao eleitorado feminino.

Na quinta-feira (9), o petista sancionou um pacote de projetos visando o enfrentamento da violência. Dentre as principais medidas sancionadas, está a lei que determina o uso imediato de tornozeleira eletrônica por agressores de mulheres em caso de risco à vida ou à integridade física ou psicológica da mulher e de seus dependentes.

Em fevereiro, o governo federal também lançou, em parceria com o Legislativo e o Judiciário, o Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio.

O programa estabelece um plano que integra os Três Poderes nas ações de proteção das vítimas e de responsabilização para agressores. O monitoramento contínuo de proteção às mulheres e uma campanha nacional para convocar homens a assumir um papel ativo contra a violência foram algumas das medidas anunciadas pelo pacto.

O chefe do Executivo também tem reforçado em seus discursos a defesa das mulheres. Já chegou a dizer que “quem bate em mulher” não precisa votar nele.

Embora sua gestão tenha anunciado políticas importantes para a pauta das mulheres, como o aumento da pena de feminicídio para até 40 anos, a criação do Ministério das Mulheres e a sanção da Lei da Igualdade Salarial, Lula tem enfrentado críticas pela falta de representatividade feminina no 1º escalão do governo e, principalmente, no STF (Supremo Tribunal Federal).

Uma das promessas de Lula na campanha de 2022 foi aumentar a presença de mulheres em cargos de liderança no governo. No início de seu mandato, o presidente nomeou 11 mulheres para ministérios, alcançando um recorde histórico na Esplanada. No entanto, três delas foram demitidas e substituídas por homens: Daniela Carneiro (Turismo), Ana Moser (Esportes) e Nísia Trindade (Saúde).

No Judiciário, Lula indicou apenas homens para cadeiras no STF: Cristiano Zanin, Flávio Dino e Jorge Messias. A vaga de Dino era antes ocupada pela ministra Rosa Weber, o que acabou reduzindo ainda mais a presença feminina no tribunal, que hoje conta apenas com Cármen Lúcia.

Para o STJ (Superior Tribunal de Justiça), Lula indicou duas mulheres no seu terceiro mandato: Daniela Teixeira e Marluce Caldas. Porém, entraram três homens na Corte no mesmo período.

Já no STM, Lula indicou Verônica Sterman, segunda ministra mulher em 218 anos do tribunal.

Em uma tentativa de rebater as críticas da direita, o governo vem tentando associar a Bolsonaro a imagem de misógino.

Durante a cerimônia de sanção do pacote de medidas de combate à violência contra a mulher, a deputada Célia Xakriabá (Psol-MG) cantou uma música em que citava o episódio da “fraquejada” mencionada pelo então presidente Jair Bolsonaro, em que disse que deu uma “fraquejada” e, por isso a sua quinta filha, Laura, nasceu mulher.

Caiado deve ressaltar gestão como governador

Na chamada “3ª via”, o pré-candidato Ronaldo Caiado também tem feito acenos ao eleitorado feminino. Conforme apurou a CNN, Caiado, assim como Flávio, também pensa em ter uma mulher como vice.

Segundo relatos feito à CNN, Caiado também deve ressaltar sua gestão enquanto governador de Goiás para mostrar que atuou no combate à violência contra as mulheres. A estratégia de campanha deve atuar no sentido de não fazer apenas um “aceno” ao eleitorado, mas mostrar que o pré-candidato do PSD tem experiência e ações concretas na pauta feminina.

Nessa linha, o presidenciável gravou vídeos de inserções de TV em que explora números de sua gestão estadual no combate à criminalidade. Em uma das peças, ele se posiciona como alguém de “mão pesada” contra agressores.

“Sabe por que os casos de feminicídio no Brasil não param de crescer? Porque a vida de quem comete esse tipo de crime está fácil demais. Dificilmente o criminoso vai preso. E quando é preso, pouco tempo depois está solto. Mas existe uma arma que pode dar um jeito nesses covardes. É esta aqui, que todo governante tem, inclusive o presidente. A diferença é que eu tenho coragem para usar. E Goiás é o estado do Brasil que mais reduziu o número de feminicídios. Quem me conhece sabe que tenho mão firme contra os criminosos. E quando esses criminosos são agressores de mulheres, aí é que eu sou mais mão pesada”, diz o ex-governador em uma das gravações.

Fonte: cnnbrasil.com.br/Anna Júlia LopesDavi Alencar e Luciana Amaral, da CNN Brasil, Brasília

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