Grupo de Moraes no STF cria frente para blindar ministro de investigações por relação com Vorcaro
Os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino em sessão do STF Foto: Bruno Moura/STF
BRASÍLIA – Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) contrários à abertura de investigação contra Alexandre de Moraes criaram uma frente para blindá-lo. Gilmar Mendes, Flávio Dino e Crisitiano Zanin integram a ala que tenta evitar apurações sobre a relação do colega com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
O arsenal inclui ataques públicos, articulações de bastidores e manobras processuais para evitar a avaliação de indícios desabonadores coletados. Relatório da Polícia Federal mostra mensagens do banqueiro a Moraes.
Em uma das mensagens, Vorcaro pergunta se deve sair do País na antevéspera de sua prisão. Chega a pedir para o ministro interceder junto ao diretor-geral da Polícia Federal e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. O documento, produzido a pedido de Mendonça, relator do caso Master, também mostra que Moraes editou contrato de R$ 131 milhões entre o banco e o escritório de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes.
O conteúdo do relatório foi revelado com exclusividade pelo Estadão no último dia 1º.
Mensagens de Gilmar Mendes a ministros
Nos dias que antecederam a sessão da última terça-feira, 15, o decano na Corte, Gilmar Mendes, enviou mensagens a dois colegas para intimidá-los e alterar resultados de decisões que envolvem o Master.
No dia 8 de setembro, ele cobrou Luiz Fux por ter registrado, na Segunda Turma, voto favorável à liminar de André Mendonça que afastou Andrei Rodrigues da direção da PF. “Isto revela qq coisa menos postura institucional. Espero que nao se repita”, disse Mendes.
A conversa foi encerrada abruptamente por Fux: “Bom Dia. Cuide de não encher meu saco!”.
Com Kassio Nunes Marques, Mendes foi ainda mais agressivo. Disse que ele e Fux eram servis e submissos a Mendonça. Em seguida, também cobrou que o colega não participasse de casos relativos ao Master e saísse do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do qual atualmente é presidente.
“Assumam q estao ferrados e saiam dos processos. Abram as contas”, disse. “Não julguem porra”, completou na sequência.

Mensagens trocada por Gilmar Mendes e Nunes Marques Foto: Reprodução / Estadão
Nunes Marques pediu respeito, disse estar disposto a abrir suas contas e bloqueou Mendes, o que impediu a continuidade das discussão.
Conforme revelou o Estadão, mensagens extraídas do celular de Vorcaro citam pagamento de R$ 500 mil ao advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques.
O ministro se declarou impedido e não participa de decisão sobre abertura de investigação contra Moraes. Embora tenha se defendido e a seu filho, dizendo não terem recebido recursos do Master nem ele votado casos de interesse do banco, fundamentou seu afastamento do caso nas possíveis repercussões eleitorais.
Disse ser incompatível participar do julgamento enquanto preside o TSE.
No material apreendido pela PF, também aparece Rodrigo Fux, filho de Fux, a quem Vorcaro pediu ajuda em processos. A troca de mensagens também indica que o banqueiro bancou ingressos para a família do advogado em um camarote VIP no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, na Sapucaí, em fevereiro de 2025.
Questão de ordem
Logo no início da sessão do dia 15, Dino registrou questão de ordem em que sugeriu juntar, em uma única deliberação, a abertura de investigações contra Moraes e André Mendonça.
A proposta tomou todo o tempo de debate e evitou que se discutisse o mérito dos indícios encontrados pela PF sobre a relação de um ministro com o banqueiro acusado de fraude contra o sistema financeiro nacional.
O ato teve a adesão de Gilmar e também tenta estabelecer simetria entre as evidências de que Moraes, por meio de escritório de sua família, ganhou quantias milionárias para defender os interesses de Vorcaro e acusações de que Mendonça teria agido com parcialidade na condução das investigações.
Troca de acusações durante sessão
Durante toda a reunião, Gilmar Mendes disferiu insultos contra Mendonça, a quem chamou de “boneco eleitoral”. Também atribuiu “covardia” e “desfaçatez” ao colega pela liminar que afastou Andrei Rodrigues da PF e por pedir relatório da PF que incrimina Moraes.
“Não se pode submeter, mesmo colega que esteja eventualmente envolvido, que teve um filho… não pode estar submetido a esse tipo de vexame. É uma atitude covarde, vil. Já disse isso em outro momento: até a máfia tem ética”, afirmou.
Dino, por sua vez, tentou minar a credibilidade de Fux e afirmou que o ministro é citado em diálogos de Vorcaro. “Presidente, as mensagens do ministro Fux, as mensagens do ministro Kassio, as mensagens relativas ao ministro André”, disse.
Fux reagiu. “Mensagem comigo não tem. Nunca vi esse cidadão na minha vida. Só se o vossa excelência está se baseando nesses inquéritos que surgem de nada”, rebateu.
Dino reafirmou as acusações. “Vossa excelência terá que esclarecer isso num momento próprio”.
Fonte: msn.com/História de Gustavo Côrtes