Ex-assessor de deputado surge “com sede” de propinas e MPE aponta repasse de R$ 290 mil
Reforma de hospital custou R$ 8,5 milhões: ex-assessor de Dagoberto cobrava propina a cada repasse feito por Itaipu (Foto: Arquivo/Leone Marcos/Região News)
Ex-assessor do deputado federal Dagoberto Nogueira (PP), Sérgio Roberto Castilho Vieira, o Serginho, é um dos alvos da Operação Dirty Pix, deflagrada para apurar o desvio de R$ 18 milhões do hospital em Sidrolândia. Conforme investigação do Ministério Público Estadual, logo após o repasse de R$ 8,5 milhões pela Itaipu Binacional para a reforma do hospital, ele entrava em contato com o presidente da instituição, Jacob Meeuwis Breure, para cobrar propinas.
Nas conversas, Serginho usava códigos cifrados para avisar a liberação do dinheiro, como “a previsão é 8 graus na segunda”, e para cobrar propina, como “tô com sede”. Na petição encaminhada à juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, o GECOC (Grupo Especial de Combate à Corrupção), cita o pagamento de R$ 290 mil em agosto de 2024, logo após a liberação da primeira parcela, de R$ 1,714 milhão.
Serginho foi assessor de Dagoberto por muitos anos. No Portal da Câmara dos Deputados, ele constou como assessor parlamentar o pepista entre dezembro de 2016 e 2021. Nas eleições deste ano, Serginho doou R$ 25 mil para a campanha pela reeleição de Dagoberto, só ficando atrás da direção nacional do PP (R$ 2,6 milhões) e do próprio deputado (R$ 310 mil).
O MPE aponta que houve pagamento em espécie em novembro e dezembro de 2024, mas os promotores Adriano Lobo Viana de Resende, Humberto Lapa Ferri e Bianka Mendes não souberam apontar o valor. Para tentar descobrir o montante pago, eles solicitaram a quebra dos sigilos bancários dos envolvidos no esquema criminoso que sangrou os cofres do Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa, de Sidrolândia.
8 graus, tô com sede, os códigos da propina
Logo após o hospital firmar o convênio para a liberação de R$ 8,5 milhões com a Itaipu, Sérgio Vieira entra em contato com Jacob Breure para avisar do pagamento da primeira parcela. Ele usa a previsão do tempo para avisar o dirigente.
“Em mensagem encaminhada a Jacob no dia 24 de agosto de 2024, Serginho usa a seguinte frase ‘previsão é de 8 graus segunda’, em referência a expectativa de liberação, na segunda-feira seguinte, da liberação do valor ao Hospital”, relataram.

Dois dias depois, Serginho procura Jacob e faz o questionamento sem rodeios: “Não vai avisar que tá com a grana?”, questiona. “Kkkkkk. Tha com sede. Né”, reagiu o dirigente do hospital. De acordo com o MPE, houve o pagamento da primeira parcela, de R$ 1,7 milhão, conforme o diálogo entre Breure e o engenheiro civil Lucas Marques Nunes, da Bálsamo Engenharia e Construtora.
“Tô com sede” e, logo em seguida: “Não bebo água faz tempo”, responde Serginho. No dia 3 de setembro de 2024, eles acertam o pagamento de R$ 290 mil para Serginho. Ele recebeu por meio de duas notas fiscais. A primeira, no valor de R$ 210 mil, e a segunda, no valor de R$ 80 mil. Uma foi emitida pelo hospital, que simulou o pagamento de um projeto arquitetônico. A outra foi pela Global Produtos Agropecuárias, de Jacob Breure.

“A estratégia permitia dificultar a identificação do real destinatário dos recursos. Ou seja, mediante a emissão de notas fiscais frias, Jacob conseguia conferir aparência de regularidade a transferências que, na realidade, destinavam-se à remuneração dos agentes envolvidos no esquema investigado”, destacou o MPE..
Dinheiro em espécie
“Com a progressiva liberação dos recursos destinados à reforma do Hospital Dona Elmíria, tanto pela Itaipu Binacional quanto pela Prefeitura de Sidrolândia, passaram a surgir sucessivas cobranças realizadas por Sergio Roberto Castilho Vieira, vulgo Serginho, acerca dos valores que deveriam ser lhe repassados dentro do esquema”, apontaram os promotores.

“As cobranças e encontros presenciais entre Sergio Roberto Castilho Vieira e Jacob Breure continuaram em 2024, a exemplo do dia 18 de dezembro desse ano, Serginho voltou a entrar em contato com Jacob para combinar novo encontro presencial, questionando: ‘Posso ir que horas, hoje no final do dia?’. Jacob responde ‘Deixa eu trocar’ e pouco depois, procurou tranquilizá-lo: ‘Te aviso. Vai dar certo’”, relataram os promotores.
Em um dos diálogos, o dirigente do hospital tranquiliza Serginho de que vai cumprir o acordo. “Te acalma o coração. Saindo ainda”, afirmou. Em outro diálogo, Serginho diz que “não podemos deixar de fazer oi segundo aniversário”, sobre o novo encontro.
Apesar de apontar que houve pagamento de propina ao ex-assessor do deputado, os promotores não conseguiram identificar o montante pago.
Serginho foi um dos alvos da Operação Dirty Pix. Apesar dele aparecer nas conversas como assessor de Dagoberto, O Jacaré optou pelo termo “ex-assessor” porque ele não aparece mais como assessor parlamentar no portal da Câmara dos Deputados.

O Jacaré procurou Serginho e o deputado federal Dagoberto Nogueira, mas não houve retorno até o momento. Assim que houver manifestação, a versão de ambos será publicada. Também tentou contato com o advogado Wellison Muchiutti, de Jacob Breure, mas também não houve retorno.
Fonte: ojacare.com.br/By Edivaldo Bitencourt
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