Como minerais raros podem causar atritos entre China, Brasil e EUA

No centro da nova guerra comercial, minerais raros transformaram o Brasil em peça-chave de um tabuleiro que envolve Washington e Pequim/Foto: Arte Metrópoles

Os minerais críticos — terras raras, lítio, nióbio e grafite — se tornaram um dos principais ativos estratégicos da economia global. Usados na fabricação de tecnologias consideradas essenciais para a segurança nacional no século 21, os recursos passaram a ocupar o centro de reuniões diplomáticas, disputas comerciais e negociações entre China, Estados Unidos e Brasil.

Quando os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se sentaram para negociar, em 7 de maio de 2026, Washington buscava alternativas para reduzir sua dependência mineral da China.

O governo brasileiro, por outro lado, tentava transformar o interesse internacional sobre as reservas brasileiras em investimentos, transferência de tecnologia e maior protagonismo geopolítico.

Uma semana depois, durante viagem de Trump a Pequim para encontro com o líder chinês, Xi Jinping, os minerais críticos voltaram ao centro das negociações comerciais entre as duas maiores economias do planeta.

Segundo especialistas, ao mesmo tempo em que aproximam economicamente os países pela necessidade de cooperação e abastecimento, os minerais críticos também aumentam tensões diplomáticas e comerciais, já que a disputa envolve não apenas a mineração, mas o domínio tecnológico, processamento industrial e controle das cadeias globais de suprimento.

“O verdadeiro poder não está apenas em ter a reserva. Está em controlar a cadeia, agregar tecnologia e negociar estrategicamente”, explica Daniel Toledo, advogado especialista em direito internacional e consultor de negócios internacionais.

Os três protagonistas

  • Brasil: detém reservas relevantes de terras raras, nióbio, lítio e grafite. Ainda processa pouco. Quer ser mais do que fornecedor de minério bruto.
  • China: domina o processamento global. Usa as terras raras como instrumento de política externa, restringindo ou liberando conforme os interesses diplomáticos.
  • Estados Unidos: dependente do refino chinês. Busca diversificar cadeias de fornecimento e vê o Brasil como parceiro estratégico confiável fora da órbita de Pequim.

China domina processamento global

A liderança chinesa no setor é um dos principais fatores de preocupação para os Estados Unidos e países europeus. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a China concentra participação dominante no processamento global da maior parte dos minerais estratégicos analisados internacionalmente.

“A China percebeu antes a importância desses minerais e consolidou presença dominante no processamento global. Hoje, quem controla a mineração, refino e processamento controla parte relevante da economia do futuro”, afirma Toledo.

A disputa ganhou contornos práticos em abril de 2025, quando Pequim impôs licenças de exportação obrigatórias para terras raras e ímãs industriais.

A medida afetou cadeias de montadoras, fabricantes de semicondutores e empresas ligadas à defesa nos Estados Unidos. A escalada levou Trump e Xi Jinping a uma conversa telefônica de cerca de 90 minutos. Depois das negociações, o governo chinês aprovou licenças temporárias para parte dos pedidos norte-americanos.

Em janeiro deste ano, representantes do G7, além de países como Índia, Coreia do Sul e Austrália, participaram de reuniões em Washington para discutir novas parcerias minerais e estratégias para reduzir a dependência global do processamento chinês.

Durante a viagem diplomática de Trump a Pequim nesta semana, os minerais críticos voltaram a aparecer como peça central das negociações e instrumento de barganha geopolítica diante das restrições comerciais impostas pelos EUA.

De acordo com a mídia internacional, os EUA tentaram garantir acesso contínuo a minerais estratégicos, enquanto Pequim buscava aliviar restrições norte-americanas sobre chips avançados e outras tecnologias consideradas sensíveis.

Xi Jinping deve visitar os Estados Unidos em agenda diplomática no segundo semestre deste ano, a convite do líder norte-americano.

Brasil no centro da disputa

Segundo Toledo, a China busca garantir continuidade de abastecimento para sua indústria, enquanto os EUA tentam construir cadeias alternativas de fornecimento. O interesse simultâneo das duas potências colocou o Brasil no centro da disputa global.

Atrás apenas da China, o país concentra cerca de 23% das reservas mundiais de terras raras, o equivalente a aproximadamente 21 milhões de toneladas, de acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e do Ministério de Minas e Energia.

“O Brasil interessa porque combina reservas relevantes, matriz energética relativamente limpa, estabilidade institucional em comparação com outras regiões produtoras e capacidade de dialogar com diferentes blocos internacionais”, afirma o advogado.

A pauta dos minerais críticos entrou de vez na agenda econômica brasileira. A Câmara dos Deputados aprovou em 6 de maio um projeto para regulamentar a exploração de minerais estratégicos e incentivar a transformação mineral no país. O texto ainda depende de análise do Senado.

Um dia depois, em Washington, o presidente Lula declarou abertamente que o país não tem preferência de parceiro e que pretende manter diálogo aberto com diferentes parceiros internacionais.

“Não temos preferência. O que queremos é fazer parceria com empresas americanas, chinesas, francesas. Quem quiser ajudar o Brasil a desenvolver mineração, processamento e produção ligada às terras raras será bem-vindo”, afirmou após encontro com Trump na Casa Branca.

Ainda de acordo com Lula, o tema foi debatido diretamente com o norte-americano durante a reunião bilateral.

Para Toledo, o Brasil ainda tem espaço para ocupar posição estratégica sem necessariamente romper relações com a China.

“O caminho mais inteligente é o equilíbrio. O Brasil pode negociar com diferentes parceiros, mas precisa definir contrapartidas como transferência de tecnologia, instalação de plantas industriais e agregação de valor local”, afirma.

Cooperação e conflito

O especialista em direito internacional Daniel Ângelo Luiz da Silva avalia que os minerais raros aproximam os países pela interdependência econômica, mas também geram atritos ligados à soberania e à redução de dependências externas.

“Os minerais raros hoje estão no centro de uma disputa estratégica global. Eles aproximam Brasil, China e Estados Unidos pela interdependência econômica, já que o Brasil tem reservas, a China domina o processamento e os EUA concentram a demanda tecnológica”, explica o advogado.

Segundo ele, a disputa ainda envolve áreas como Direito Internacional, regulação econômica, legislação minerária e questões ambientais.

Fonte: metropoles.com/Madu Toledo

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