2 de agosto de 2026
Economia

Choque entre política fiscal e juros gera “bola de neve” na dívida pública

Continuidade dos gastos públicos também força a manutenção da política monetária do Banco Central em patamar contracionista  • Ilustração gerada por IA

Dívida em juros nominais passa de R$ 1 trilhão, valor equivalente a quase 9% do PIB

Uma política fiscal expansionista na contramão do esforço do Banco Central de frear a economia é o que pressiona o patamar da dívida pública, segundo economistas ouvidos pelo CNN Money.

Além de um cenário macroeconômico global em que os juros são elevados no mundo todo, os especialistas ressaltam que a continuidade dos gastos públicos é um elementos que forçam a manutenção da política monetária do Banco Central em patamar contracionista.

“Os juros altos são uma consequência de um problema que não é estrutural”, pontua Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e presidente do conselho de administração da Jive Mauá.

“Nós praticamos uma política fiscal que vai sempre na contramão do Banco Central. Para a inflação acalmar, ele precisa reduzir um pouco a atividade, moderar um pouco o crescimento. Mas, do outro lado, o governo acelera muito, expande muito o gasto”.

No acumulado em doze meses até junho, o custo com os juros alcançou R$ 1,16 trilhão, o equivalente a 8,8% do PIB (Produto Interno Bruto), ante a R$ 912,3 bilhões (7,41% do PIB) nos doze meses até junho de 2025.

Hoje, a taxa básica de juros do país está em 14,25% ao ano. Com incertezas no horizonte, a perspectiva é de que a Selic caia em um ritmo muito lento. A expectativa dos economistas, segundo a pesquisa Focus , é de que a taxa permaneça em dois dígitos até 2028.

Carlos Kawall, sócio proprietário na Oriz Partners e ex-secretário do Tesouro Nacional, avalia que o nível atual da taxa de juros “não é explosivo” como em outros momentos de crise vividos pelo país. No entanto, ele afirma que hoje “o patamar da dívida é muito mais alto”.

“O tempo com que a gente pode conviver com esse juro real elevadíssimo não é tão dilatado. A velocidade de crescimento da dívida e das taxas de juros vem sufocando o setor privado, contratando uma recessão, uma crise, que quando acontecer vai piorar o problema fiscal, porque a arrecadação cai”, pontua Kawall.

“Não tem como sobreviver por tanto tempo com esse nível de juro real e a dívida pública crescendo”, conclui.

Olhando para a Dívida Bruta do Governo Geral – que compreende o governo federal, o INSS, os governos estaduais e municipais –, houve um avanço para 81,9% do PIB em junho, alcançando R$ 10,4 trilhões.

Se a rota seguir, a cifra deve ultrapassar de 100% do PIB entre 2032 e 2035, segundo estudo da Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados.

O cenário que o país enfrenta é de “fadiga fiscal”: quando se perde a capacidade de estabilizar o crescimento da dívida com a geração de superávits primários (quando o caixa do governo fecha positivo). Isso porque existem, explica a pesquisa, limites tanto para o aumento da tributação quanto para o corte de gastos de despesas correntes.

“O Brasil, ao que parece, já opera em uma região de resistência para novos aumentos de carga tributária, e o gasto público tenderá a ser constantemente pressionado, nos anos futuros, em decorrência da transição demográfica em curso no país”, diz o consultor Paulo Bijos, autor do levantamento.

Fonte: cnnbrasil.com.br/João Nakamura, da CNN Brasil, em São Paulo

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