26 de outubro de 2026
Política

Com inadimplência recorde no Brasil, Idec propõe criação de novo órgão para proteção do consumidor

Cerca de 200 milhões de brasileiros possuem conta bancária ou para pagamentos digitais/Foto: João Godinho/O Tempo

Autoridade Brasileira de Proteção Financeira do Consumidor centralizaria informações e monitoramento, diz instituto

Com a inclusão digital da população no sistema bancário, surgiram também novas ameaças. A facilidade de abrir uma conta, especialmente com a ascensão das fintechs, permitiu que a bancarização atingisse 96,4% dos brasileiros, segundo dados do Banco Central. Ao mesmo tempo, as pessoas sofreram uma média de quatro tentativas de golpe digital por minuto no último ano, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Com ataques tão frequentes ao bolso do cidadão, mesmo com instituições criadas para protegê-lo, o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) aproveita o momento eleitoral e propõe a criação de um novo órgão fiscalizador do mercado financeiro.

O Brasil já conta com uma série de órgãos de proteção ao consumidor, como o Procon, e de regulação e fiscalização do sistema financeiro, como o próprio Banco Central. A proposta do Idec é criar a nova Autoridade Brasileira de Proteção Financeira do Consumidor. A intenção é centralizar informações em um novo órgão com poder para fiscalizar a conduta de instituições financeiras, prevenir práticas abusivas, suspender produtos nocivos e assegurar a reparação de danos aos consumidores.

“A concessão de crédito explodiu e veio um ambiente de crédito para todas as camadas da população. Temos entidades de defesa do consumidor, mas todas elas muito fragmentadas. Temos um ambiente robusto, mas não integrado. A nossa iniciativa é trazer a atuação de cada um dos atores para um ambiente em que possamos ter a visão do que está acontecendo e acompanhar as demandas dos consumidores”, resume a consultora do programa de Serviços Financeiros do Idec Ione Amorim.

A proposta foi elaborada com pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O modelo de funcionamento da nova entidade ainda será debatido, e a ideia do Idec é levar o tema à sociedade civil e ao novo Congresso em 2027.

“Se essa autoridade já existisse, não teríamos tido o escândalo do INSS, porque as reclamações eram recorrentes. Quem estava observando de forma estruturada que o processo [dos descontos indevidos] não era interrompido? Esse sistema não deixará que se valha de brechas da legislação”, prossegue Amorim. Na fraude do INSS, associações e sindicatos de fachada realizaram descontos ilegais diretamente na conta de beneficiários entre 2019 e 2024. O esquema só foi descoberto e desmantelado em 2025 a partir de uma operação da Polícia Federal (PF). 

Para a especialista em finanças da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) Merula Borges, ainda que existam muitos órgãos de proteção financeira, há um desconhecimento geral do consumidor sobre a função de cada um. Ela avalia que a centralização de informações pode tornar a atuação das entidades mais eficaz, contudo sublinha as particularidades regionais do Brasil.

“Quando as informações são compartilhadas de maneira mais centralizada, há um direcionamento nacional e uma melhora na orientação. Mas também temos um Brasil muito grande, então o sistema precisa ser pensado para ter alguma autonomia para exercer melhor suas funções de acordo com as demandas que existem na sociedade”, pontua.

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Além de golpes, inadimplência é desafio

Além dos golpes, o endividamento assombra os consumidores. O número de inadimplentes no Brasil bateu um recorde de 83,9 milhões de pessoas em agosto, que somam R$ 350 milhões em dívidas atrasadas. Os altos juros no Brasil e a falta de educação financeira pesam no cenário, aponta o Idec, mas somam-se a eles a maneira como o crédito é oferecido, as taxas cobradas, a publicidade insistente e a ausência de uma avaliação adequada da capacidade de pagamento.

A renda do brasileiro nunca foi maior – R$ 3.367 mensais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – nem o desemprego mais baixo – 5,3%, no trimestre encerrado em agosto. Ao mesmo tempo, o Feirão Limpa Nome da Serasa bate recordes de participação e o governo federal lançou sucessivas rodadas do programa Desenrola.

Um dos fatores que explica o crescimento do endividamento mesmo com esses atenuantes é a quantidade de dívidas por inadimplente, pontua o especialista da Serasa em educação financeira Fábio Mian. Cada inadimplente no Brasil tem, em média, 4,15 dívidas negativadas, de acordo com a instituição.

“Então, mesmo com ações do governo e com o Feirão Limpa Nome, o que percebemos é que existem consumidores multiendividados. Sempre fica alguma dívida em aberto. Ao longo do ano, existem bons momentos, como o 13º para quem é CLT. Mas, depois, vêm janeiro, fevereiro e março com contas. Vivemos sempre em um ciclo de recebimento e gastos”, pondera o Mian.

Acrescentam-se a isso, ainda, fatores culturais que agravam o problema, argumenta a especialista em finanças da CNDL Merula Borges. “Temos um apelo social muito grande para o consumo. Antes, a comparação era com o vizinho, agora é nas redes sociais. E há uma possibilidade de consumo maior. As fintechs tiveram um avanço muito intenso sobre os consumidores, oferecendo produtos financeiros que às vezes eram mais caros, e aí fica mais difícil resistir a tentações”, arremata.

Quais são os órgãos de defesa financeira do consumidor no Brasil

Procons estaduais e municipais:

São órgãos de defesa do consumidor que recebem reclamações, notificam fornecedores, promovem conciliações, fiscalizam práticas comerciais e podem instaurar processos administrativos e aplicar sanções.

Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon):

Vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, coordena a política nacional de defesa do consumidor e articula a atuação de Procons e outros integrantes do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (SNDC), rede de órgãos de todas as instâncias.

Consumidor.gov.br:

Plataforma pública para reclamar diretamente com empresas participantes. A empresa responde na plataforma, e o consumidor pode avaliar a resposta e indicar se o problema foi resolvido.

Banco Central:

Recebe reclamações sobre assuntos como Pix, contas, cartões e empréstimos, encaminha-as às instituições e usa os registros em suas atividades de supervisão e no ranking de reclamações. Não decide o conflito individual nem determina, por essa via, que o banco devolva um valor específico.

Ministério Público:

Pode investigar violações de direitos do consumidor, instaurar inquéritos civis, firmar termos de ajustamento de conduta (TACs) e ajuizar ações civis públicas, especialmente quando há interesses coletivos ou práticas que atingem muitos consumidores

Defensoria Pública:

Presta assistência jurídica gratuita, podendo negociar acordos, ajuizar ações e defender consumidores em processos judiciais.

Juizados Especiais Cíveis e Justiça em geral:

São os caminhos para buscar uma decisão judicial quando a empresa não resolve o conflito.

Comissão de Valores Mobiliários:

Regula e fiscaliza o mercado de valores mobiliários, incluindo ações, ofertas públicas, fundos de investimento, companhias abertas e a atuação de participantes regulados.

Superintendência de Seguros Privados:

Supervisiona os mercados de seguros, capitalização e previdência complementar aberta.

Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc):

Fiscaliza as entidades fechadas de previdência complementar, conhecidas como fundos de pensão, geralmente vinculados a empresas, órgãos ou categorias profissionais

Federação Brasileira de Bancos (Febraban):

Representa instituições do setor e mantém iniciativas de autorregulação, com regras e mecanismos de acompanhamento aplicáveis às instituições participantes.

SAC e Ouvidoria da própria instituição financeira:

Não são órgãos independentes de defesa do consumidor, mas são canais importantes para documentar a tentativa de solução.

Fonte: otempo.com.br/Gabriel Rodrigues


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