27 de julho de 2026
CotidianoSaúde

Um ano após chegar ao Brasil, Mounjaro muda tratamento da obesidade

Injeção de Mounjaro, medicamento para tratamento de diabetes mellitus tipo 2 e obesidade  • Sandy Huffaker for The Washington Post via Getty Images

Tirzepatida elevou as expectativas em torno do tratamento da obesidade e acompanhou uma mudança no entendimento da doença. A endocrinologista Dra. Isis Toledo analisa o cenário atual e as perspectivas para os próximos anos

Há pouco mais de um ano, a chegada da tirzepatida às farmácias brasileiras representou um divisor de águas no tratamento da obesidade. Pela primeira vez, médicos e pacientes passaram a contar com uma terapia capaz de promover reduções médias de peso superiores a 20% em estudos clínicos, resultado sem precedentes entre os medicamentos aprovados para obesidade.

Mais do que um novo fármaco, o Mounjaro marcou o início de uma nova fase da endocrinologia, em que o foco deixa de ser apenas emagrecer e passa a ser proteger a saúde metabólica de forma ampla.

A obesidade passou a ser tratada de forma diferente

Quando a tirzepatida foi lançada no Brasil, em junho de 2025, rapidamente se tornou um dos assuntos mais discutidos na medicina. Em poucos meses, mudou a rotina dos consultórios, ampliou o interesse da população pelo tratamento da obesidade e consolidou uma transformação iniciada pelos agonistas do receptor de GLP-1.

Ao completar um ano no mercado brasileiro, fica claro que seu maior legado talvez não seja apenas a expressiva perda de peso, mas a mudança de paradigma que trouxe para o tratamento da doença.

Durante muitos anos, o sucesso terapêutico era medido quase exclusivamente pelo número de quilos perdidos. Hoje, essa visão é muito mais ampla. A obesidade é reconhecida como uma doença crônica, multifatorial e de alta complexidade, associada ao diabetes tipo 2, a doenças cardiovasculares, à apneia obstrutiva do sono, à doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), à osteoartrite e a diversos tipos de câncer.

No estudo SURMOUNT-1, pacientes tratados com tirzepatida 15 mg apresentaram redução média de 20,9% do peso corporal em 72 semanas, enquanto 57% alcançaram perda de pelo menos 20% do peso inicial. Esses resultados foram acompanhados por melhora do controle glicêmico, da pressão arterial, do perfil lipídico e de outros marcadores cardiometabólicos.

Mais importante ainda, a tirzepatida abriu espaço para que o tratamento deixasse de ser centrado apenas na balança.

Hoje discutimos redução de gordura visceral, preservação da massa muscular, melhora da composição corporal, prevenção de complicações, redução do risco cardiovascular e aumento da qualidade de vida. É uma mudança profunda na forma de enxergar a obesidade.

Um mercado que mudou rapidamente

O impacto também foi sentido fora dos consultórios. A procura por tratamentos cresceu, novos protocolos passaram a incorporar essas terapias e a indústria farmacêutica acelerou o desenvolvimento de moléculas cada vez mais eficazes.

Ao mesmo tempo, a discussão pública amadureceu. Temas como obesidade, saúde metabólica, composição corporal, alimentação e atividade física passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de brasileiros, contribuindo para reduzir o estigma da doença e ampliar o entendimento de que ela exige tratamento contínuo.

O futuro já começou

Se a tirzepatida inaugurou uma nova geração de medicamentos, dificilmente será a última grande inovação.

A molécula que hoje desperta maior expectativa é a retatrutida, agonista triplo dos receptores de GLP-1, GIP e glucagon. No estudo de fase 2, publicado no New England Journal of Medicine, a dose de 12 mg promoveu redução média de 24,2% do peso corporal em 48 semanas, mantendo uma curva de perda de peso ainda ascendente ao final do estudo. Resultados recentes dos estudos de fase 3 reforçam esse potencial, com perdas superiores a 20% em diferentes populações avaliadas.

Outros candidatos seguem em desenvolvimento, como a berberina de longa ação (berobenatida), desenvolvida para administração mensal; a UBT251, também baseada em agonismo triplo; as combinações entre agonistas de GLP-1 e amilina, como CagriSema; além de novas opções orais, como o orforglipron, que poderá ampliar o acesso ao tratamento para pacientes que preferem evitar medicamentos injetáveis.

Embora muitos desses tratamentos ainda estejam em desenvolvimento clínico, eles demonstram que a endocrinologia vive um dos períodos de maior inovação de sua história.

Talvez o maior ensinamento deste primeiro ano de Mounjaro no Brasil seja que o tratamento da obesidade deixou de buscar apenas uma perda de peso maior.

O objetivo agora é promover uma perda de peso de melhor qualidade, preservando a massa muscular, reduzindo a gordura visceral, controlando doenças associadas e aumentando a expectativa e a qualidade de vida.

Mais do que uma corrida para desenvolver medicamentos cada vez mais potentes, estamos assistindo à construção de um arsenal terapêutico capaz de oferecer tratamentos cada vez mais personalizados.

A chegada do Mounjaro não representou apenas o lançamento de um novo medicamento. Ela marcou o início de uma nova era no tratamento da obesidade, em que o foco deixa de ser apenas reduzir números na balança e passa a ser restaurar a saúde metabólica, prevenir complicações e promover longevidade com qualidade de vida.

*Texto escrito pela endocrinologista e metabologista Dra. Isis Toledo (CRM-SC 22334 | RQE 17867), Título de Especialista pela SBEM e membro da Brazil Health

Fonte:cnnbrasil.com.br/Brazil Health

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