Abandonados após curso de formação: 447 novos policiais civis enfrentam crise financeira e necessidades à espera de nomeação por parte do Governo de MS
Sem cronograma de nomeação por parte do Governo do Estado, centenas de novos policiais que abandonaram suas vidas em outras regiões do país vivem na vulnerabilidade, enquanto delegacias sofrem com déficit histórico de efetivo
A tão sonhada formatura de 447 novos profissionais da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul — sendo 330 investigadores e 117 escrivães —, realizada no dia 12 de junho em Campo Grande, transformou-se rapidamente em um cenário de angústia e incerteza. Foram 810 horas-aula ao longo de 137 dias de intensa e exclusiva preparação na Acadepol/MS, em curso que iniciou em janeiro deste ano, o Governo do Estado não apresentou qualquer planejamento ou data para a nomeação dos formandos, deixando-os à própria sorte.
Acredita-se que cerca de 60% dos candidatos que integraram o curso de formação vieram de fora do Estado, para cumprir o edital que exigia dedicação exclusiva. Para cumprir o requisito, centenas de homens e mulheres abandonaram empregos, estabilidade e suas redes de apoio em suas terras natais. Agora, sem salário e sem perspectiva, muitos enfrentam condições difíceis de sobrevivência na capital sul-mato-grossense.

O presidente do Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol), José Nascimento Sobrinho, recebeu alguns formandos e se colocou à disposição para buscar articulação política na tentativa de agilizar as nomeações, alertando que a falta de efetivo nas delegacias do interior e da capital já atinge níveis críticos.
Incertezas e desespero
O relato de uma das aprovadas que preferiu não se identificar, temendo retaliações que possam prejudicar sua futura posse, expõe o desespero de quem acreditou nas promessas institucionais de celeridade. Vinda da região Nordeste do País e de família simples, ela descreve a preocupação e a falta de respostas do Executivo estadual após meses ouvindo que a polícia precisava dos formandos imediatamente.
“Eu vim exclusivamente para o concurso. Muitos largaram toda a sua vida, sua trajetória que construíram em outro Estado para vir para cá. Ficamos de janeiro até junho fazendo um curso de formação onde, a todo momento, os professores e colaboradores da academia verbalizavam que a necessidade de efetivo era muito importante. Os professores da gente, a maioria, eram delegados. Eles mesmos falavam da realidade das delegacias, especificamente da necessidade que tinham da gente”.

A expectativa por um ato célebre de nomeação ruiu quando o governador anunciou que ainda precisava de um planejamento e não sabia quando os convocaria. O “banho de água fria” desencadeou uma crise de subsistência entre os formandos.
“Algumas pessoas tiveram a oportunidade de voltar para suas cidades, outras não têm essa oportunidade. Tem gente que não dinheiro para comprar comida, tem gente que está trabalhando de noite, de madrugada, como motorista de aplicativo mesmo sem conhecer a cidade. O atual cenário está deixando as pessoas adoecidas”.
“Meu cérebro está condicionado a ficar acordado, esperando o Diário Oficial para ver se sai alguma coisa. Eu venho lá do Nordeste, sou de família simples… Estou que nem louca atrás de emprego”, complementou
O colapso iminente nas delegacias
A ausência dos novos policiais agrava um cenário de vulnerabilidade na segurança do Estado. Com as remoções internas de policiais antigos já efetuadas, delegacias de origem ficaram totalmente desguarnecidas à espera dos novos servidores.
“O próprio Estado investiu no curso de formação, eu sei que não é barato. E quanto mais demora, as pessoas não vão retornar para cá. Muitos estão fazendo outros concursos. Quanto mais o Estado demora para chamar esses profissionais que estão habilitados, menos vão ficando porque estão buscando outras saídas…”

Curso de formação
Ao longo de 137 dias de capacitação, entre 27 de janeiro e 12 de junho de 2026, os alunos participaram de uma preparação voltada ao desenvolvimento de competências técnicas, operacionais, jurídicas e éticas essenciais ao exercício das atividades de investigação criminal e de polícia judiciária.
Com carga horária total de 810 horas-aula, o Curso de Formação Policial 2026 contemplou atividades acadêmicas, treinamento operacional e estágios supervisionados. Do total da carga horária, 608 horas-aula foram desenvolvidas em regime acadêmico de semi-internato, 82 horas-aula em estágio supervisionado em regime de plantão policial e 120 horas-aula em estágio supervisionado em regime de expediente.
Sem resposta
Esta reportagem entrou em contato com a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (SEJUSP) e com a Secretaria de Estado de Administração (SAD) para solicitar esclarecimentos formais sobre os motivos do atraso na convocação dos aprovados, bem como a previsão oficial de publicação do cronograma de nomeações. Até o fechamento desta edição, não houve retorno por parte dos órgãos públicos. O espaço segue aberto para manifestação.
Fonte: Roberta Cáceres / Jornal Servidor Público MS
Fotos: Divulgação