PF vê concentração de recursos na véspera do 1º e 2º turno e pode desvendar “virada” de Adriane

Prefeita não foi alvo da Operação Suffragium, mas foi a principal beneficiada pela suposta compra de votos (Foto: Divulgação)

Investigação da Polícia Federal encontrou indícios de estrutura organizada para a compra de votos nas eleições de 2024 e que teriam favorecido a vitória de Adriane Lopes (PP), a primeira mulher eleita pelo voto direto na história de Campo Grande. Conforme a Operação Suffragium, deflagrada nesta sexta-feira (19), a quebra de sigilo apontou movimentações financeiras atípicas e concentradas na véspera do 1º e 2º turnos, que pode explicar a virada da prefeita, que estava atrás nas pesquisas e saiu vitoriosa com a abertura das urnas.

“Os elementos já obtidos apontam para uma engrenagem financeira destinada à distribuição de recursos para fins de captação ilícita de sufrágio, cuja completa dinâmica operacional ainda depende da análise de dispositivos eletrônicos, registros contábeis, planilhas e demais documentos eventualmente apreendidos”, apontou a PF, em trecho obtido pela TV Morena e confirmado pelo O Jacaré.

Uma das peças chaves na investigação é a ex-assessora Simone Bastos Vieira, que era lotada no gabinete de Adriane e foi responsável por um dos Pix investigados, no valor de R$ 1,2 mil para o líder comunitário Sebastião Martins Vieira, o Tião da Horta. Em depoimento à Justiça, ele confirmou que foi contactado pela comitê de reeleição da prefeita para comprar votos e recebeu os recursos de Simone.

A ex-assessora foi demitida por Adriane no dia 6 de maio do ano passado, um dia depois de ser contratada pelo prefeito Clóvis do Banco (PSDB), de Taquarussu. (veja matéria). A PF apreendeu o telefone da diretora do departamento de estratégia da Saúde da Família.

Estrutura criminosa sofisticada para compra de votos

A PF aponta que houve a montagem de uma estrutura organizada e sofisticada para a captação ilícita de sufrágio de forma a dificultar o caminho do dinheiro, os envolvidos no esquema e os destinatários.

“A investigação sustenta a existência de uma estrutura organizada voltada à captação ilícita de sufrágio, composta por quatro núcleos de atuação interligados. Segundo os elementos obtidos teriam ocorrido movimentações financeiras atípicas, com transferências sucessivas, fracionamento de valores via PIX e utilização de contas de terceiros para disseminação de recursos próximos aos turnos eleitorais”, apontou.

Para evitar o trabalho da PF, o grupo de Adriane se utilizou de contas bancárias de particulares, servidores públicos e empresas para a circulação dos recursos. Houve transferências sucessivas entre diferentes contas de forma a evitar a identificação da origem do dinheiro usado na compra de votos.

A PF apontou que houve pulverização de valores por meio de múltiplas transferências via Pix e fracionamento dos montantes para reduzir a visibilidade pelo Coaf, o xerife do sistema financeiro.

PF apreendeu materiais e celulares, que podem esclarecer pontos da investigação (Foto: Reprodução/Midiamax)

Outro destaque é a concentração temporal das movimentações financeiras na véspera das eleições. Isso pode explicar o resultado da votação. Adriane estava em 3º nas pesquisas e corria o risco de ficar de fora do segundo turno, mas acabou em primeiro lugar com a abertura das urnas, com 140.913 votos (31,67%), na frente de Rose Modesto (União Brasil), que liderava as pesquisas e ficou em 2º com 131.525 (29,61%). Outra surpresa foi eliminar Beto Pereira, na época no PSDB, que vinha subindo nas pesquisas e tinha a força do Governo, mas ficou de fora do segundo turno ao conquistar 115.516 votos (25,96%).

O mesmo ocorreu no segundo turno. Adriane venceu o pleito com 222.699 voltos (51,45%), apesar de ter aparecido em 2º lugar ou em empate técnico com Rose, que ficou em 2º com 210.112 (48,55%). A vantagem foi de 12.581 votos, a menor vantagem desde 1996, quando André Puccinelli (MDB) venceu Zeca do PT por 411 votos.

Quatro núcleos

A PF identificou quatro núcleos envolvidos na compra de votos. A pirâmide tinha o núcleo político, composto pelos supostos beneficiados pela captação ilícita de sufrágio, no caso, Adriane Lopes e a vice-prefeita, Camilla Nascimento Oliveira (sem partido).

Elas foram “inocentadas” pelo placar de 5 a 2 pelo Tribunal Regional Eleitoral. Dos sete juízes eleitorais, seis concordaram que houve compra de votos. No entanto, eles divergiram sobre dois pontos. O primeiro é de que não houve prova cabal de que houve ordem de Adriane para a compra de votos. O segundo é de que não ficou provado de que a captação ilícita foi decisiva para a vitória da atual prefeita.

Confira a estrutura dos Núcleos Investigados, conforme a PF:

1. Núcleo de Comando Político / Beneficiários Diretos

Seria composto pelos supostos destinatários políticos do esquema, apontados como possíveis beneficiários eleitorais da captação ilícita de sufrágio. A investigação atribui a esse núcleo a posição de direção ou favorecimento político da estrutura, embora inexista, até o momento, elementos individualizados suficientes que demonstrem participação direta na execução dos pagamentos ou transferências investigadas.

2. Núcleo de Coordenação Institucional e Financeira

Responsável, segundo a hipótese investigativa, pela organização e gerenciamento dos recursos empregados na operação. Esse núcleo teria atuado na movimentação e distribuição dos valores destinados à compra de votos, utilizando mecanismos de circulação financeira destinados a dificultar o rastreamento da origem e do destino dos recursos.

3. Núcleo de Intermediadores Operacionais

Formado por pessoas encarregadas de operacionalizar a distribuição dos recursos e estabelecer a ligação entre os responsáveis financeiros e os executores da captação ilícita de sufrágio. Os elementos colhidos indicariam atuação na logística financeira, pulverização de recursos e realização de transferências para múltiplos destinatários.

Viatura da PF durante operação nesta sexta (Foto: Direto das Ruas)

4. Núcleo de Beneficiários Finais

Composto pelos destinatários finais dos valores distribuídos no contexto investigado, representando os supostos eleitores aliciados mediante vantagem econômica para influenciar o voto.

Recursos pendentes

Enquanto a PF comanda a investigação, inclusive com o aprofundamento com a deflagração da Operação Suffragium, o Tribunal Superior Eleitoral deve pautar os recursos do Ministério Público Eleitoral, do PDT e da Democracia Cristã que pedem a cassação dos mandatos de Adriane e Camilla. A relatora é a ministra Estela Aranha.

A corte eleitoral é famosa pela morosidade. O maior exemplo é Claúdio Castro, que só foi cassado após três anos e renunciar ao mandato para ser candidato a senador nas eleições deste ano.

Fonte: ojacare.com.br/By Edivaldo Bitencourt

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