Que trabalheira, deputado! Você precisa de 143 funcionários!

Que trabalheira, deputado! Você precisa de 143 funcionários!

Em 1855, a Câmara Federal tinha 103 deputados. Um deles era João Manuel Pereira da Silva, que não se conformava com a quantidade de funcionários da instituição. Era um exagero! Para que tantos funcionários? Eram 95! Ou seja, não chegava a um funcionário por deputado, mas ele achava demais.

Eu me lembro desta informação toda vez que vejo notícias sobre a quantidade de cargos de confiança que cada deputado e senador têm. Os deputados podem ter 25 cargos comissionados, quer dizer, sem concurso, contratados por eles mesmos. Então, na Câmara atual, com 513 deputados, poderia ter 1.665 funcionários comissionados, fora os funcionários de carreira, não contratados por eles mesmos. Eu digo “poderia” porque pode ter mais: o presidente da Câmara, por exemplo, tem “direito” de contratar mais.

Alguém pode lembrar aí o caso das “rachadinhas”, em que o parlamentar que não produz coisa nenhuma e não precisa de assessores, contrata os 25 para se comportarem como fantasmas, nem aparecem na Câmara. Ele finge pagar um salário X para um cara que topa ganhar um pouco sem fazer nada, mas quem fica com mais da metade desse valor X é o próprio deputado. Isso vale também para deputados estaduais e vereadores. Basta ver um bravo combatente “contra a corrupção” que comprou dezenas de imóveis e os adversários malvados dizem que boa parte dessa grana vem dessas “rachadinhas”.

Mas se isso deixa alguém indignado… ah, leu a F.de São Paulo de hoje (25 de maio de 2026)? Se esse limite de 25 funcionários comissionados por deputado parece demais, deputados estaduais de vários estados acham isso muito pouco. Em Goiás, a Assembleia Legislativa, com 41 deputados estaduais, tem 5.875 cargos de confiança!!! Isso dá uma média de 143 cargos comissionados para cada um. Segundo a matéria da Folha, cada deputado tem um gabinete de 100 metros quadrados e se esses comissionados deles aparecessem para trabalhar, cada um teria que ocupar menos de um metro quadrado.

Goiás é o exemplo maior, mas em 14 estados os deputados estaduais superam o número limite do Congresso Nacional. O vice-campeão nisso é Mato Grosso, com 132 funcionários comissionados por deputado. Questionada, a Assembleia Legislativa mato-grossense deu uma resposta que é uma joia: “Não se trata de estrutura ilimitada ou superdimensionada, mas de organização legalmente prevista, submetida a limites objetivos”. Podem me explicar o que significa isso? Eu me lembro de que décadas atrás alguém que teve a pachorra de colecionar um amontoado de palavras que poderiam ser usadas para pomposamente não dizer nada.

Mas esse tipo de cinismo está hoje amplo, geral e irrestrito no Brasil. Usam um palavreado muito interessante para se justificar pelas suas mutretas. Ou, quando não é isso, usam uns chavões como, quando alguma empresa é flagrada em alguma safadeza ou uma instituição é denunciada por conduta criminosa: “Não compactuamos com nenhuma conduta desse tipo e estamos colaborando com a justiça”. E ponto final. Fica o dito pelo não dito, confiando que a justiça não vai funcionar (o que é mais regra do que exceção).

As condutas criminosas, ou no mínimo ilegais, tornaram-se o “normal” hoje em dia. Quem rouba, corrompe, mata ou manda matar, contrabandeia, grila terras ou faz qualquer outra coisa do gênero comporta-se como se isso fosse o normal. Quando a coisa é braba demais, dizem que o vídeo que mostra o que fizeram ou a frase que disseram foi tirada do contexto, e pronto! E pior: as próprias vítimas muitas vezes apoiam seus enganadores. Eu me lembro de uma mulher que explorava ilegalmente jogos chamados “bets”, que foi presa em Pernambuco, se não me engano, e ao ser solta por liminar da justiça (eita, justiça!), na saída da cadeia foi aplaudida por uma multidão de apostadores da sua “bet” em que eles perdiam a grana.

Essas coisas todas me fazem refletir sobre uma das minhas profissões, a de jornalista. Nos jornais diários havia várias editorias, como política, economia, esportes, polícia, cultura… Será que ainda têm? Parece que hoje é necessária apenas uma editoria, a de polícia. Política? Puro noticiário policial. Economia? Re-re-re… A tal “Faria Lima” não sai do noticiário policial. Esportes? Vixe! Cultura? Bom… Nem toda… Temos gente produzindo bons filmes, por exemplo, bons músicos (minoria, mas tem)… Mas ao mesmo tempo vemos prefeituras de cidades com serviços públicos precários ou inexistentes (água, esgotos, educação…) contratando “músicos” (entre aspas mesmo) por até mais de um milhão de reais. E têm uma desculpa: não foi com dinheiro da prefeitura, foi com verba repassada por um deputado qualquer (taí de novo uma maravilha do nosso poder legislativo).

E pra não dizer que esse pessoal usa a grana dedicada ao que julga ser cultura só para cantores bregas, seus companheiros de ideologia (será que a tal rachadinha não entra nisso?) resolveram fazer filmes também. Eles, que acharam um desperdício uns vinte e poucos a quarenta milhões usados para produzir filmes premiados mundo afora, previram R$ 134 milhões para um filme pangaré. Desculpa: não tem dinheiro público nisso. Mentira, como é hábito deles: além de emendas parlamentares destinando dinheiro a eles, tem uma grana doida do “irmão” Vorcaro, especialista em meter a mão na coisa pública.

Lembro que cada deputado pode usar até R$ 50 milhões por ano em emendas para agraciar o que quiser. Parte vai sim, para saúde, rodovias, saúde… Mas boa parte vai para mutretas ou coisas que não têm nada a ver. E além disso, administrar o orçamento público e destinar grana para seja o que for não é função de deputado. Eles aproveitaram a debilidade ética do governo da extrema direita para irem se apropriando de funções e grana do Executivo, e tornou-se impossível reverter isso, pois eles se sentem empoderados e usam seus poderes para fazer o que quiserem, mutretas principalmente. O papel deles devia ser legislar, criar e aprovar leis. Bom… É melhor que não exerçam muito este papel: as leis que criam são quase sempre contra o Brasil e os brasileiros. É ampliar o poder de desmatamento, acabar com direitos dos trabalhadores, proteger golpistas e eles mesmos contra ações da justiça…

Tô espichando demais. Pra terminar, vou contar uma coisa. Já contei em outros lugares antes, mas repito aqui.

Em 1982, o PT concorreu às eleições pela primeira vez. Já tinha alguns deputados egressos do PMDB, que participaram da fundação do partido. Os novos eleitos tomaram posse em 1983. Franco Montoro tinha sido eleito governador de São Paulo e corria o boato que ele demitiria sumariamente funcionários fantasmas, aqueles que ganham sem trabalhar, inclusive os da Assembleia Legislativa. Nos dias seguintes à posse dos deputados eleitos, tinha tantos funcionários na Assembleia que não cabiam nela. Não eram comissionados e sim funcionários teoricamente de carreira. Mas não houve demissões e tudo voltou ao “normal”.

Um deputado estadual me convidou para trabalhar em sua assessoria, e eu fui. Éramos poucos comissionados. Além de mim, pelo que me lembro, tinha o motorista e uma escriturária, depois mais uma assessora política. Minha memória não está tão boa, mas não chega perto do limite de 25 por deputado, como funciona hoje a Assembleia Paulista, obedecendo ao limite federal.

Minha função incluía fazer projetos de lei (mas para isso tinha a equipe técnica da Assembleia, não eram necessários os comissionados pelo próprio deputado, mas eu fazia), escrever discursos para ele, fazer contato com a imprensa…

Depois de uns três meses trabalhando na Assembleia (cumpria horário sim, segunda a sexta no mínimo oito horas por dia e mais algumas atividades em fins de semana), comecei a ficar incomodado com a inutilidade do meu trabalho. Não por causa do deputado, mas por causa do sistema vigente. O Poder Legislativo tinha e tem características executivas: eu pensava que os projetos de lei entravam em discussão e votação por ondem cronológica, mas não, entra o que o presidente da Assembleia quiser (assim como o da Câmara dos Vereadores, da Câmara dos Deputados e do Senado). Se ele não quiser, o projeto de lei, por mais útil e necessário que seja, nunca é levado ao plenário. Pra que fazer projetos de lei que contrariam os poderosos?

Os próprios discursos que eu escrevia e o deputado lia no plenário, às vezes não tinha quem o ouvisse, então pra que ler? “Publique-se no Diário Oficial como lido”.

Um dia, perdi a paciência e fui falar com o deputado, pedi que me demitisse. Ele argumentou que estávamos numa recessão desgraçada (foi braba, em 1983), desemprego galopante, e perguntou se eu já tinha arrumado novo emprego. Disse que não, ele propôs que eu arrumasse emprego primeiro e depois ele me demitiria. Ah, era um bom deputado e sujeito decente, Sérgio Santos. Eu respondi que estando empregado procuraria emprego de corpo mole, sem me esforçar. Precisaria ficar desempregado para correr atrás. A contragosto, ele me demitiu (e me ferrei, demorei meses pra conseguir um emprego ganhando pouco).

Eu morava numa república na Vila Madalena, com mais quatro pessoas, numa casa frequentada por muita gente todos os dias, e tínhamos o hábito de conversar e contar causos bebericando todas as noites. Nesse dia cheguei em casa muito feliz. Ficamos conversando e bebericando até meia-noite. Os visitantes foram embora e os colegas/amigos da república foram dormir porque tinham que trabalhar no dia seguinte. Só eu ficaria à toa, e estava sem sono, ainda flutuando por me livrar de um emprego que não gostava. Fui pro meu quarto, onde tinha uma mesa com uma máquina de escrever (nem sonhava com computadores).

Escrevi uma matéria pro Pasquim, um dos jornais alternativos que colaborava, mas às 3h da manhã continuava sem sono. Resolvi então escrever alguns dos causos que contava e que diziam que eu devia escrever, mas até então resistia. Até às 7h escrevi 23 causos. Aí sim, fui dormir.

Levantei às 11h e fui dar um passeio pela Vila Madalena, encontrei um amigo que me encomendou uma matéria pra um jornal alternativo da gringolândia, sobre a política brasileira no momento. À noite, mesma coisa: meia-noite, me vi como único acordado na casa e fui pro quarto escrever a tal matéria. Foi rápido e continuava sem sono. Mas uns vinte causos. Na terceira noite, mais uma matéria pro Pasquim (a ser enviada para outra edição) e mais causos.

Assim, em três noites escrevi meu primeiro livro, “Santa Rita Velha safada” – Santa Rita Velha foi um dos nomes da minha cidade, Nova Resende, quando era um povoado, e coloquei a coletânea “safada” porque meus causos (a maioria ouvidos na barbearia do meu pai, numa selaria em que fui aprendiz e numa loja em que fui caixeiro até completar 16 anos) eram na maioria safados mesmo.

Achei que ia parar por aí. Até o livro ser publicado, em 1977, não pensei mais nisso. Mas anos depois foram aparecendo outras ideias e acabei escrevendo um monte.

Até hoje me perguntam se eu vivo da renda dos meus livros, e respondo com honestidade: se fosse viver disso, tinha morrido de fome há muito tempo. Mas esse primeiro livro rendeu um pouco: na época havia muitas revistas semanais e mensais, e quase todas publicavam uma crônica na última página. Sobrava trabalho para cronistas. Às vezes algum amigo me indicava para uma revista qualquer e o editor perguntava sobre minha profissão. “É jornalista”, respondiam os amigos, e o editor dispensava. Jornalista não interessava. Mas como tinha publicado um livro, passaram a responder: “É escritor”. Aí sim, interessava. Isso me ajudou a sobreviver por uns tempos… Mas essas revistas foram desaparecendo, né?

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Fonte: msn.com/História de Lucas Vasques

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