Por que entrada no Conselho da Paz de Trump pode ser perigo para Lula
Participação no conselho idealizado por Trump divide o Planalto e expõe riscos diplomáticos, políticos e comerciais para o governo Lula/Foto: Ricardo Stuckert/PR
Um convite para integrar o Conselho da Paz de Donald Trump tornou-se o novo dilema diplomático do governo brasileiro. Nessa segunda-feira (26/1), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou quase 50 minutos em uma ligação com o líder da Casa Branca. E um dos temas principais foi a estrutura da organização, que pode ampliar o protagonismo internacional do Brasil ou trazer riscos políticos, diplomáticos e econômicos.
Analistas ouvidos pelo Metrópoles avaliam que a decisão coloca o governo brasileiro diante de uma encruzilhada.
Participar do conselho pode comprometer princípios históricos da política externa do país, enquanto uma recusa direta tende a recolocar o Brasil em rota de colisão com Washington, justamente após um ano de esforços para reaproximar ambos os governos e reduzir tensões comerciais ainda em vigor.
Convite reforçado
- Na última semana, Trump havia reforçado o convite para o Brasil integrar o colegiado criado pela Casa Branca para coordenar esforços de transição política, segurança e reconstrução da Faixa de Gaza.
- O republicano chegou a afirmar que o petista teria um “grande papel” no conselho.
- Lula, por sua vez, evitou dar uma resposta definitiva e apresentou condicionantes.
- Uma das principais preocupações do governo brasileiro é o alcance da iniciativa.
- A minuta de criação do Conselho da Paz prevê que o órgão possa atuar em qualquer conflito que venha a se desenvolver, não apenas em Gaza, o que amplia o grau de envolvimento político dos países integrantes.
Críticas ao modelo e defesa da ONU
Nessa segunda, durante telefonema, o brasileiro sugeriu que a atuação do órgão fosse limitada ao conflito em Gaza e que houvesse representação da Palestina nos debates.
Em nota divulgada após a conversa, o Planalto informou que Lula voltou a defender uma reforma abrangente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), com ampliação dos membros permanentes.
“Ao comentar o convite formulado ao Brasil para que participe do Conselho da Paz, Lula propôs que o órgão apresentado pelos Estados Unidos se limite à questão de Gaza e preveja assento para a Palestina. Nesse contexto, reiterou a importância de uma reforma abrangente das Nações Unidas”, diz o comunicado.
“O multilateralismo está sendo jogado fora pelo unilateralismo, ou seja, está prevalecendo a lei do mais forte. A carta da ONU está sendo rasgada”, afirmou Lula, ao dizer que o republicano quer “criar uma nova ONU” e ser “dono dela”.
Protagonismo limitado no Conselho
Para a coordenadora do curso de relações internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, Fernanda Brandão, o desenho do conselho limita o espaço de atuação de países como o Brasil. Segundo ela, Trump não costuma dividir protagonismo em iniciativas internacionais, o que reduz a capacidade de influência de outros atores.
“Assim, o Brasil ao decidir participar terá dificuldades em avançar seus interesses e posições nesse Conselho. Apesar de correr o risco de se tornar corresponsável pelas decisões tomadas, a presença do Brasil também cria espaço para o país manifestar suas preocupações e perspectivas sobre Gaza”, afirma.
A especialista destaca que há uma tendência de prevalência de países alinhados a Israel entre os convidados, dificultando a defesa de posições historicamente adotadas pelo Brasil no conflito do Oriente Médio, como a solução de dois Estados — onde Israel e Palestina coexistiriam como dois países independentes.
Presidência fixa e lógica financeira
Outro ponto sensível é a estrutura de governança do órgão. Diferentemente do modelo adotado pela ONU, o Conselho da Paz não prevê rodízio de comando.
Há também preocupação com o modelo financeiro.
O documento prevê que países interessados em assento permanente aportem US$ 1 bilhão ao fundo do conselho, o que, na avaliação da diplomacia brasileira, cria uma lógica de “paz mercantil”, na qual quem contribui mais tem maior peso político.
Resistência interna e condicionantes
Internamente, auxiliares do Planalto avaliam que o Brasil não deve aceitar um convite baseado em adesão automática a um estatuto unilateralmente formulado pelos Estados Unidos.
A tendência entre integrantes do governo, no momento, é negar a proposta.
Até agora, Lula ainda não bateu o martelo. A avaliação no Planalto é de que o tema seja empurrado para o segundo semestre, quando deve ganhar centralidade nos debates da Assembleia Geral da ONU, em setembro.
Custos políticos e risco à neutralidade
O peso geopolítico da decisão também preocupa especialistas. Para o líder de estratégia de alocação da InvestSmart XP, Rafael Bellas, a entrada do Brasil no colegiado reforça a legitimidade internacional de uma iniciativa liderada pelos Estados Unidos, mas expõe o país a custos políticos relevantes.
Segundo ele, ao integrar o conselho, o Brasil deixa de ser apenas um mediador externo e passa a compartilhar o respaldo institucional ao arranjo.
Caso decisões controversas sejam tomadas ou a reconstrução de Gaza enfrente impasses, o Brasil pode ter a imagem associada aos resultados, mesmo sem influência decisiva.
Bellas também destaca que a participação pode enfraquecer a política externa de neutralidade ativa adotada pelo Itamaraty, especialmente junto a países do Sul Global e parceiros árabes, reduzindo a credibilidade do país como ator equilibrado em fóruns multilaterais.
“Seu prestígio diplomático pode acabar associado a uma estratégia definida principalmente pelos Estados Unidos”, destaca.
América Latina no radar de Trump
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro acompanha com cautela a postura de Trump em relação à América Latina, tratada pelo republicano como área de influência dos Estados Unidos. Analistas avaliam que uma recusa direta ao convite poderia levar a um endurecimento da posição americana, inclusive com reflexos comerciais.
Por outro lado, aceitar o convite exige habilidade diplomática para manter o diálogo com países árabes, preservar o compromisso com o multilateralismo e evitar desgaste interno.
Fonte: metropoles.com/Manuela de Moura