PIB Inflado, contas no vermelho e crise social: a verdade que tentam esconder sobre Mato Grosso do Sul
Enquanto o governo celebra um crescimento econômico questionável, o Estado afunda em déficits, renúncias fiscais bilionárias e indicadores sociais alarmantes/artigo – Paulo M. Esselin
A divulgação de um artigo assinado pelo pesquisador Dr. Matheus Boldrine Abrita, publicado pelo Correio do Estado, caiu como uma bomba no debate público de Mato Grosso do Sul. O texto afirmava que o Estado teria registrado, em 2023, um crescimento de 13,4% do Produto Interno Bruto (PIB), impulsionado por agroindustrialização, integração produtiva e uso intensivo de tecnologia. A manchete animou governistas, desorientou a frágil oposição e foi prontamente celebrada por integrantes do Executivo estadual.
O vice-governador, embalado pelo entusiasmo, declarou em entrevista ao Jornal da Hora, no dia 6 de janeiro, que a grande preocupação do governo seria “fazer com que esse crescimento econômico seja compartilhado com a população”. A fala soa bonita — quase revolucionária —, mas não resiste a uma análise minimamente rigorosa dos dados oficiais.
Os números reais contam outra história. Segundo o próprio site do governo estadual, a taxa média anual de crescimento do PIB de Mato Grosso do Sul entre 2019 e 2023 foi de apenas 3,75%, o que totaliza 18,75% em cinco anos. No mesmo período, a inflação acumulada foi de 29,84%. Ou seja: não houve crescimento real da economia estadual. A narrativa de um avanço robusto de 13,4% ao ano simplesmente não existe.
Enquanto o discurso oficial vende prosperidade, as contas públicas revelam um cenário preocupante. No quinto bimestre de 2025, o Estado registrou resultado primário negativo equivalente a 4% da Receita Corrente Líquida, segundo o Relatório Resumido de Execução Orçamentária divulgado pelo Tesouro Nacional em 19 de dezembro. O rombo gira em torno de R$ 780 milhões.
A situação se agrava quando se observa o custo da máquina pública. No terceiro trimestre de 2025, os gastos com pessoal alcançaram 59% da receita total — apenas um ponto abaixo do limite máximo permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. É o maior peso entre todas as despesas liquidadas, sinal claro de desequilíbrio estrutural.
Apesar disso, o vice-governador afirmou, em entrevista à Rede Top FM no dia 29 de dezembro, que o governo estaria reduzindo despesas sem cortar investimentos. A realidade, porém, aponta para outro caminho: os cortes não surtiram efeito, e o governador tem recorrido sistematicamente a empréstimos para viabilizar promessas de campanha. Já são cerca de R$ 5 bilhões contratados em novos financiamentos, todos dependentes de aval da União — algo cada vez mais incerto diante da fragilidade fiscal do Estado. Lembrando que os empréstimos em dólar a dívida é convertida pela cotação da moeda na data do pagamento.
O contraste se torna ainda mais gritante quando se analisa a política de renúncia fiscal. Apenas em 2026, Mato Grosso do Sul deixará de arrecadar cerca de R$ 11,9 bilhões, principalmente via incentivos de ICMS concedidos ao agronegócio, à soja, ao boi e ao eucalipto. Desde 2023, o volume dessas renúncias cresceu 114%, sem transparência ou contrapartidas claras. Em 2027, o valor deve chegar a R$ 12,6 bilhões; em 2028, a R$ 13,4 bilhões.
Ao mesmo tempo em que concede benefícios bilionários às elites econômicas, o governo pede ao governo federal a renegociação de uma dívida consolidada de R$ 7,2 bilhões — dívida essa que já havia sido renegociada em 2018 e que, até 2048, alcança a cifra astronômica de R$ 20,4 bilhões, conforme cronograma físico financeiro disponível no site do STN – Secretaria do Tesouro Nacional. Para efeito de comparação, o vizinho Mato Grosso ostenta hoje a menor dívida do país e uma infraestrutura logística muito superior e de fazer inveja ao nosso Mato Grosso do Sul. Onde o vizinho tem projetos claros de desenvolvimento e ampliação de mercados futuros.
Os resultados sociais dessa política são visíveis e alarmantes. No Ranking de Competitividade dos Estados 2025, Mato Grosso do Sul aparece mal posicionado em áreas essenciais: 23º em potencial de mercado, 19º em segurança pública, 24º em custo do saneamento básico e energia elétrica (tarifas caras e serviços péssimos), 14º no IDH; 15º em Mortalidade na Infância; 19º em Desnutrição na Infância; 15º no Trabalho Infantil; 25º em trabalho escravo, 25º em déficit de vagas prisionais e 26º em morbidade hospitalar por acidentes de trânsito. O Estado também figura entre os piores do país em violência sexual (23º) e feminicídio (26º), com risco concreto de assumir o 1º lugar nacional nesse trágico indicador na próxima publicação do Ranking de Publicidade e no Anuário de Segurança Pública.
Na saúde, o descaso ganha contornos simbólicos. Em 29 de novembro de 2025, enquanto o governador comemorava a final da Libertadores em casa, pacientes do Hospital Regional enfrentavam temperaturas próximas de 40 graus sem ar-condicionado na ala de parturientes e recém-nascidos. Filas de espera, superlotação e cerca de 500 pacientes aguardando cirurgias compunham um cenário descrito pela própria imprensa como “caos histórico”. Agora endivida o Estado com mais um empréstimo de US$80 milhões de dólares, cujo maior beneficiário desses investimentos será uma empresa privada. Isso mesmo: o maior Hospital Público do Mato Grosso entregue a iniciativa privada. Em qual local do mundo a privatização de serviços públicos essenciais visou atender a população e não aos interesses dos seus acionistas?
Diante desse quadro, a pergunta se impõe: qual é o projeto do governo para Mato Grosso do Sul? Um projeto de Estado, voltado à população, ou apenas um projeto de poder sustentado por números inflados, discursos otimistas e benefícios concentrados?
Se ao menos parte das renúncias fiscais fosse revista, seria possível aliviar a contribuição previdenciária dos aposentados e pensionistas, cumprir promessas feitas aos professores da rede estadual e investir de fato em saúde, educação e proteção social. Mas isso exigiria coragem política para enfrentar interesses poderosos.
Até lá, fica claro: não há o que comemorar. Por trás do discurso de crescimento, Mato Grosso do Sul caminha perigosamente para a insolvência fiscal, a privatização forçada de serviços essenciais e o aprofundamento das desigualdades sociais. A realidade, por mais que tentem disfarçar, insiste em aparecer.
Fontes: https://sadipem.tesouro.gov.br/sadipem/private/pages/pvl/pvl_list.jsf/Ranking de Competividade 2025 – CLP – Centro de Liderança Pública e Tendências Consultoria
Fonte: pautadiaria.com.br/Artigo: Paulo M. Esselin