Master: ONG que acusa BTG, Nubank e XP foi barrada pelo TCU e recebeu R$ 421 milhões do governo

Associação que acusa corretoras no caso Master pede doações, mas recebeu quase meio bilhão do governo federal/Foto: Reprodução: Google Street View

Responsável por uma ação em que acusa de propaganda enganosa o BTG Pactual, o Nubank e a XP Investimentos no caso Master, o Instituto Abradecont tem uma “vida dupla”: ao mesmo tempo em que pede doações ao público como ONG em defesa do direito dos consumidores e trabalhadores, a associação atua, sem abrir essa faceta ao público, como fornecedora de mão de obra terceirizada para o governo federal.

Desde 2010, o Abradecont já recebeu mais de R$ 421 milhões do governo federal em contratos, especialmente com órgãos vinculados ao Ministério da Saúde. O Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu, no entanto, que a ONG tem se beneficiado de incentivos fiscais para disputar as licitações e ganhar os contratos.

Foto de fachada do Tribunal de Contas da União TCU
Sede do TCU em Brasília

Sediado em Niterói (RJ), o instituto tem sete contratos ativos com o governo federal, sempre de fornecimento de mão de obra (terceirização), com a Fiocruz (seis deles) e com o Instituto Nacional de Cardiologia. O maior dos contratos ativos, com a Fiocruz, é de R$ 23,1 milhões, com o objetivo de “prestação de serviços especializados e treinados para suporte à assistência”.

O Abradecont omite em seu site, porém, a informação de que atua como fornecedora de mão de obra terceirizada, ou mesmo que mantém relações com o governo federal. Para além da atividade jurídica, o Abradecont diz apenas que, “como uma ONG, prestamos atendimentos gratuitos em espaços públicos no centro do Rio, em comunidades e em parceria com outras ONGs e projetos sociais, como o Ação Global, parceria Sesi/Firjan/Globo que acontece em todo o país”.

O TCU chegou a determinar a anulação da habilitação do Abradecont em uma licitação da Justiça Militar em 2019, por entender que havia desvio de finalidade na atuação da associação, beneficiária de imunidades fiscais.

Conforme a decisão, “admitir a participação dessa associação em competição com entidades empresárias acaba por frustrar o caráter competitivo da atividade econômica, haja vista os benefícios fiscais a que fazem jus às pessoas jurídicas sem fins lucrativos”.

Segundo o Ministério Público de Contas, “ao inserir os termos ‘fomentação do setor terceirizado’ e ‘busca do pleno emprego’, a entidade buscou dar ares de legalidade a uma situação que, na realidade, consiste na mera intermediação de mão de obra, serviço que pode ser prestado por qualquer empresa constituída para esse fim”.

Acórdão do TCU aponta irregularidades envolvendo o Instituto Abradecont
Acórdão do TCU aponta irregularidades envolvendo o Instituto Abradecont

Mesmo com essa decisão, o Abradecont foi, posteriormente, contratado por diversas vezes por órgãos do governo federal.

A entidade é presidida pela advogada Daniella Martins Carvalho de Souza. Ela atua, em paralelo, como coordenadora especial das Comissões Temáticas da OAB-RJ. O marido de Daniella, Evilásio Alves de Souza, com quem tem um escritório de advocacia, é sócio-administrador da empresa Abra Rio Prestação de Serviços Terceirizados Ltda, que tem sede no mesmo prédio da Abradecont.

A Abra Rio atua também com o fornecimento de mão de obra. A empresa não tem mais contratos vigentes com o governo federal, mas já recebeu R$ 10,9 milhões em verbas federais por contratos de fornecimento de pessoal, segundo dados do Portal da Transparência.

No Abradecont, ela atua ao lado do advogado Sergio Antunes de Lima Júnior. A parceria entre eles não se limita a essa entidade: em paralelo ao Abradecont, há outro instituto com o qual Daniella e Sergio estão diretamente envolvidos. Trata-se do Instituto Movad de Respeito à Advocacia. Nesse caso, Sergio é o presidente, e Daniella Carvalho é a vice, conforme divulgado no site do Abradecont e nas redes sociais do instituto.

Há um uso duplo dos institutos em ações judiciais. Em dezembro de 2023, o Abradecont ingressou com ação civil pública contra a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e as distribuidoras de energia Light e Ampla. O caso segue em andamento, ainda sem sentença.

Dois meses depois, o Instituto Movad entrou também com uma ação civil pública contra as mesmas empresas. A ação buscava cancelar negativações de consumidores pelas distribuidoras de energia. O Movad tentou desistir, mas o juiz não deixou.

Na sentença de mérito, de agosto de 2025, o juiz Victor Agustin Cunha Jaccoud Diz Torres, da 7ª Vara Empresarial do TJRJ, pontuou que “a associação [Movad] busca ajuizar ação civil pública sem pertinência temática, haja vista que a interrupção do fornecimento de energia não se trata de ofensa às garantias fundamentais da advocacia”.

O juiz cita precedente do STF sobre “as chamadas ‘associações genéricas’, de indigência programática, que não velam pelos interesses de categoria específica, mas se dedicam a um amplíssimo escopo de atuação”.

Conforme declarou o juiz, “não se pode admitir que a autora, sem representatividade adequada, se constitua em ombudsman da sociedade, substituindo-se até ao Ministério Público e a PGR”. A decisão extinguiu o processo sem resolução do mérito.

O que diz o Instituto Abradecont

Procurada, a ONG enviou a seguinte nota, reproduzida na íntegra:

“O Instituto Abradecont lamenta que, diante de uma das ações mais relevantes para a proteção do investidor no Brasil, tente-se desviar o foco do mérito jurídico para ataques de caráter administrativo. Causam estranheza questionamentos sobre atividades lícitas e legitimas do instituto surgirem exatamente no momento em que o instituti confronta grandes instituições financeiras (XP, BTG e Nubank) pela omissão de riscos ao mercado.

A Abradecont reafirma sua legitimidade e transparência em 25 anos de história e não se deixará intimidar por tentativas de descredenciamento que visam apenas proteger interesses econômicos em detrimento do direito dos consumidores. O debate sobre a ética no mercado financeiro é de ordem pública e seguirá seu curso rigoroso sob o acompanhamento do Ministério Público e do Judiciário.

Adicionalmente, o Instituto Abradecont informa que formulou, na data de hoje [2/2/2026], uma representação junto ao Ministério Público (que será oportunamente comunicada ao Juízo da causa), solicitando a abertura de investigação de condutas que, supostamente, caracterizam Litigância Predatória de Imagem e Abuso de Poder Econômico.

A tentativa de desviar o foco do mérito jurídico da Ação Civil Pública — que trata do dever de transparência e omissão de riscos no mercado financeiro — através de ataques à imagem da entidade autora, logo após o ingresso de ação judicial, configura, em tese, uma estratégia de interferência externa na prestação jurisdicional e atentado à paridade de armas.

O Instituto reitera que o debate sobre a ética e a proteção do investidor brasileiro é de ordem pública e não será silenciado por expedientes fora do processo.

A higidez do processo coletivo será defendida nas instâncias competentes, onde a verdade informativa deve prevalecer sobre tentativas de assassinato de reputação.”

O Instituto Abradecont não comentou a conclusão apresentada pelo TCU, apesar de questionado sobre o tema.

Fonte: metropoles.com/Tácio Lorran

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