Grupo de Neno é condenado a 99 anos de cadeia; deputado bolsonarista pega 16 anos

Deputado foi condenado por chefiar organização criminosa armada, explorar o jogo do bicho e pela prática de três roubos (Foto: Arquivo)

A Justiça condenou deputado estadual Roberto Razuk Filho, o Neno Razuk (PL), e mais 11 integrantes da organização criminosa a 99 anos e quatro meses pelos crimes de organização criminosa, exploração ilegal do jogo do bicho e roubos. O parlamentar bolsonarista foi condenado a 16 anos, sendo 15 anos e 7 meses de reclusão no regime fechado e cinco meses de detenção no aberto.

A sentença é decorrente da denúncia do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) decorrente da Operação Successione. Em sentença publicada nesta segunda-feira (15), o juiz José Henrique Kaster Franco, da 4ª Vara Criminal, concluiu que há provas de que o deputado usou da violência e policiais militares da reserva para impor o terror e assumir o controle do jogo do bicho em Campo Grande.

“Nestes autos, não se está diante de um agrupamento eventual e ocasional de pessoas. O grupo aqui denunciado é permeado por um pactum sceleris firme, perene e amplo”, apontou Franco. Neno teria recorrido a violência e até feito lista de execuções de adversários para assumir o comando do jogo do bicho após a derrocada da família Name em decorrência da Operação Omertà.

“O caráter armado da organização criminosa investigada na Operação Successione emerge de diversos elementos probatórios, desde depoimentos de vítimas até apreensões físicas e análises de mensagens. O grupo não apenas possuía armamento, mas utilizava sua ostensividade e a presença de policiais militares (da reserva) para impor terror aos rivais, coagir trabalhadores a mudarem de lado na disputa pelo monopólio do jogo do bicho e, quiçá, obrigar os chefes rivais a sentarem na mesa para negociar”, afirmou o juiz.

“A organização não se valia de armas esporadicamente. A organização contava com um braço armado em tempo integral. Desde reuniões a operações externas, as armas estavam presentes”, destacou.

“A violência verbal e psicológica era utilizada para coagir os ‘recolhes’ (motociclistas) a traírem o grupo rival (MTS) e, quiçá, forçar o grupo rival a negociar. As ameaças não eram veladas, mas diretas e pessoais”, reforçou.

Operação Successione detonou investigação contra deputado em 2023 (Foto: Arquivo)

QG, armas e máquinas de jogo do bicho

Ao longo da sentença com 93 páginas, José Henrique Kaster Franco cita trechos dos depoimentos, conversas colhidas no celular do deputado e indícios, como casa alugada para a exploração do jogo, mais de 700 máquinas usadas nas apostas e imagens para mostrar os integrantes do grupo armados. O veículo usado nos três assaltos a mão armada dos recolhes adversários.

“É lícito concluir, portanto, ao contrário do alegado pelas defesas (assim ROBERTO RAZUK FILHO, TAYGOR IVAN MORETTO PELISSARI e MATEUS AQUINO JUNIOR), que os equipamentos se destinavam ao jogo ilegal. Não eram destinas a nenhuma megaloja de departamentos ou mesmo a apostas legalizadas (‘Bets’), conforme atestou também outra testemunha, o delegado de polícia da DRACCO, Alexandro Mendes de Araújo, em juízo”, rebateu o magistrado, sobre as máquinas apreendidas pelo Garras.

“A estabilidade e a não eventualidade da organização são reforçadas por várias constatações. A apreensão de tantas máquinas, por si só, já atesta que não se tratava de amadores e menos ainda de um negócio passageiro. Não fosse isso suficiente, mesmo após a apreensão de 705 máquinas e a ação policial na Rua Gramado em 16 de outubro de 2023, as transcrições revelam que o grupo se reorganizou, alugou novos imóveis, recebeu novos equipamentos e planejou a expansão das atividades para o estado de Goiás”, apontou, sobre o objetivo de contar com investidor para chegar ao estado vizinho com R$ 30 milhões.

“A estabilidade é igualmente demonstrada pela forma como o grupo abordava os ‘recolhes’ (motociclistas) do grupo rival. Não se tratava apenas de apossamento do dinheiro do dia, mas de cooptar a força de trabalho para uma operação futura e contínua, oferecendo salários fixos e comissões, o que pressupõe um fluxo de caixa constante e planejamento a longo prazo”, pontuou.

“A organização mantinha imóveis específicos (‘QG’) para centralizar as operações, realizar reuniões e armazenar equipamentos. A apreensão de 705 máquinas de cartão (POS), muitas ainda nas caixas e outras já em operação e com extratos de jogo do bicho, indica um investimento massivo visando a uma operação de larga escala e longa duração, incompatível com uma aventura criminal passageira”, afirmou.

“A estabilidade é robustecida pelo contexto histórico: o grupo pretendia preencher o vácuo de poder deixado pela Operação Omertà (que desarticulou a família Name) e disputar território com o grupo rival ‘MTS’. O delegado Fábio Peró (Garras), em juízo, descreveu a situação como uma disputa estruturada de poder: ‘ficou característico. Ali eram dois grupos rivais disputando o mercado, né (…) bicho roubando bicho, né?’”, contou, citando o então titular do Garras.

“Pular Carnaval”

O juiz destacou ainda a violência do grupo ao citar que foi apreendida uma lista em poder do major da reserva da PM, Gilberto Luís dos Santos, de uma lista de quem “ia pular”. Para o magistrado, não há dúvidas de que se tratava de lista de alvos de execução.

“Não é necessário saber, a propósito, quem efetivamente escreveu as anotações. O certo é que estavam na casa de GILBERTO LUIS DOS SANTOS e refletem palavras típicas de execução. Não se cuida, evidentemente, de uma lista de quem iria ‘pular carnaval’, como afirmou em juízo Wanderson Luiz Ferreira dos Santos, não sem alguma desfaçatez”, frisou o magistrado.

“Em suma, o grupo utilizava a condição de agentes da segurança pública (policiais reformados), a contratação de pistoleiros da fronteira, dentre outros expedientes, para criar uma atmosfera de terror, na qual a recusa em colaborar resultava em assalto, invasão de domicílio ou risco de morte”, destacou.

“O grupo colocou a cabeça do líder da facção rival (MTS), identificado como ‘Rico’ ou ‘Macaule’, a prêmio. O valor oferecido pela execução variava entre 50 e 100 mil reais, conforme apontei nos parágrafos 98 e 99. Rico seria atraído a uma reunião para que fosse pego”, descreveu o juiz.

“Uma outra característica presente e típica das organizações criminosa é a infiltração nas esferas de poder. Um dos réus era deputado estadual. Empregava os comparsas no próprio gabinete. Três dos principais operadores da organização (GILBERTO LUIS DOS SANTOS, MANOEL JOSÉ RIBEIRO e DIEGO DE SOUZA NUNES) estavam nomeados como assessores parlamentares no gabinete do deputado. Imprimia material do jogo do bicho nas impressoras da Assembleia Legislativa”, ressaltou.

“A organização demonstra forte penetração nas forças de segurança, valendo se da condição de policiais militares da reserva de seus membros de alta hierarquia, GILBERTO LUIS DOS SANTOS (Major) e MANOEL JOSÉ RIBEIRO (Sargento). Essa condição permitia ao grupo acesso a Sistemas Restritos, como o acesso privilegiado de GILBERTO LUIS DOS SANTOS a bancos de dados oficiais e restritos da segurança pública, como o SIGO e o INFOSEG, para levantar informações sobre veículos e pessoas que rondavam os integrantes da organização ou para monitorar rivais”, destacou.

“Também há elementos que apontam lavagem de Capitais. ROBERTO RAZUK FILHO, por exemplo, utilizava contas bancárias de terceiros (como a de um sobrinho) para realizar pagamentos e mascarar a origem do dinheiro utilizado no esquema”, apontou.

“Chama atenção outros dois pontos desse diálogo: a tomada do jogo em Campo Grande era apenas um dos negócios dos interlocutores, o menor de todos, o que dá ideia da dimensão, ainda não explorada, do grupo. E o fato de terem se associado com um grupo não identificado, o que sugere conexões ainda maiores do que as aqui julgadas”, afirmou Franco.

A pena de cada um

  • Neno Razuk: 15 anos, 7 meses e 15 dias de reclusão no regime fechado; 5 meses de detenção no aberto
  • Gilberto Luís dos Santos, major da reserva da PM, o Coronel: 16 anos, 4 mees e 29 dias de reclusão no fechado; 6 meses de detenção no aberto
  • Manoel José Ribeiro, sargento da reserva da PM: 13 anos, 7 meses e 1 dia de reclusão no fechado; 5 meses de detenção no aberto
  • Carlito Gonçalves Miranda: 10 anos, 9 meses e 24 dias de reclusão no fechado;
  • Mateus Aquino Júnior: 11 anos e 7 meses de reclusão no fechado; 4 meses de detenção no aberto
  • José Eduardo Abdulahad: 4 anos e 1 mês de reclusão no fechado; 4 meses de detenção no aberto
  • Edilson Rodrigues Ferreira, o Mentirinha: 3 anos e 6 meses de reclusão no aberto; 4 meses de detenção no aberto
  • Diogo Francisco, o Barone: 3 anos e 6 meses de reclusão no aberto; 4 meses de detenção no aberto
  • Valmir Queiroz Martinelli, o Cebola: 3 anos e 6 meses de reclusão no aberto; 4 meses de detenção no aberto
  • Wilson Souza Goular: 4 anos, 2 meses e 22 dias de reclusão no semiaberto; 5 meses de detenção no aberto
  • Júlio Cezar Ferreira dos Santos: 3 anos e 6 meses de reclusão no aberto; 4 meses de detenção no aberto
  • Taygor Ivan Moretto Pelissari: 4 anos, 11 meses e 15 dias de detenção no fechado; 6 meses de detenção no aberto.

Os réus poderão recorrer da sentença.

Deputado nega acusações

À Justiça, o deputado Neno Razuk alegou que “a acusação não demonstrou os elementos essenciais do tipo penal previsto na Lei n. 12.850/2013, como estrutura ordenada, divisão de tarefas, estabilidade e permanência” da organização criminosa. Ele afirmou que não houve provas da prática dos três roubos.

“A majorante relativa ao armamento deve ser afastada porque não houve apreensão e que a menção a armas pelas vítimas dos roubos não comprova que a organização em si fosse armada de forma permanente”, rebateu.

Sobre o jogo do bicho, ele destacou que “a acusação teria se baseado em conversas de terceiros e na reputação familiar do réu”. O pai do deputado, Roberto Razuk foi acusado no passado de comandar a jogatina em Dourados.

Fonte: ojacare.com.br/By Edivaldo Bitencourt

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *