Briga de Trump pela Groenlândia afeta acordo pós-guerra com a Ucrânia
Tensão de Trump e Europa em torno da Groenlândia fragmenta a Otan, agrada Moscou e ameaça foco diplomático nas negociações de paz na Ucrânia/Foto: Arte Metrópoles
A insistência de Donald Trump em levar adiante a retórica de assumir o controle da Groenlândia abriu uma nova frente de tensão com aliados europeus e passou a interferir diretamente nas negociações para encerrar a guerra na Ucrânia.
O embate abala o eixo do debate estratégico no Ocidente, enfraquecendo a coesão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e criando um ambiente favorável aos interesses da Rússia em um momento decisivo para um acordo que defina o futuro da Ucrânia em um período pós-guerra.
Ao afirmar que a Groenlândia é “essencial para a defesa dos Estados Unidos” e sugerir negociações imediatas para a compra do território — pertencente à Dinamarca —, o republicano reacendeu uma disputa geopolítica sensível no Ártico.
A retórica, que chegou a incluir ameaças econômicas contra países europeus contrários ao plano, provocou reações em capitais como Paris, Berlim e Copenhague e ampliou fissuras na aliança.
Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, tentou conter a escalada, centralizando o foco na guerra que perdura no leste europeu a quase quatro anos.
“A questão principal não é a Groenlândia. Agora, a questão principal é a Ucrânia”, afirmou.
O alerta para o risco de a aliança “baixar a guarda” vem no momento em que Kiev enfrenta escassez de mísseis de defesa aérea.
Tabuleiro que beneficia o Kremlin
Para o Kremlin, a equação é clara: quanto maior a divisão entre Estados Unidos e Europa, menor a capacidade do Ocidente de sustentar uma frente unificada na Ucrânia.
A guerra, que já dura quase quatro anos, segue sendo tratada por Moscou com seriedade. Mesmo que a Rússia veja com cautela a possibilidade de maior presença norte-americana no Ártico, o saldo imediato da crise é positivo para Putin.
Inclusive, no início da semana, ao comentar sobre o assunto, o russo declarou que o plano de Trump não é extravagante, mas parte de uma estratégia norte-americana antiga e recorrente.
A ameaça de Trump em relação à Groenlândia abre um precedente que pode ser explorado pela Rússia para tentar “justificar” a invasão do território ucraniano.
Groenlândia no centro do tabuleiro
- O Ártico tornou-se uma das regiões mais cobiçadas do planeta, impulsionado pelo degelo acelerado, pela abertura de novas rotas marítimas e pelo acesso a recursos naturais estratégicos.
- A Groenlândia ocupa posição central nesse cenário.
- O território abriga ainda depósitos de terras raras essenciais para a transição energética e para a indústria tecnológica.
- Do ponto de vista militar, a região é igualmente sensível. Mais da metade do território ártico pertence à Rússia, que mantém extensa infraestrutura militar e a maior frota de quebra-gelos do mundo.
- Rússia e Estados Unidos estão separados por poucos quilômetros no Estreito de Bering, e mísseis posicionados no Ártico russo poderiam alcançar a Groenlândia.
Impacto direto nas negociações de paz
A crise groenlandesa surge em paralelo a um momento delicado das negociações para encerrar a guerra na Ucrânia. O enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, confirmou que se reunirá com o presidente Vladimir Putin, em Moscou, a pedido do próprio governo russo, nesta quinta-feira (22/1).
Washington considerou o ato como “significativo”.
Ao mesmo tempo, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reconheceu divergências importantes com os Estados Unidos sobre os termos de um eventual acordo seguro para um pós-guerra na Ucrânia.
Nesta quarta-feira (21/1), Putin chegou a sugerir o uso de ativos russos congelados para a reconstrução da Ucrânia em um cenário de pós-cessar-fogo.
Kiev teme que concessões territoriais e garantias de segurança frágeis abram caminho para um novo conflito no futuro.
Moscou observa e comemora
Enquanto Washington e a Europa entram em rota de colisão, Moscou observa com entusiasmo contido. A imprensa estatal russa passou a elogiar Trump e a criticar líderes europeus que se opõem à anexação da Groenlândia.
Na visão pró-Kremlin, qualquer movimento que enfraqueça a Otan ou fragmente a unidade ocidental representa uma vantagem estratégica direta no conflito ucraniano.
A leitura em Moscou é que a obsessão norte-americana pela Groenlândia desloca prioridades, reduz a pressão coordenada sobre a Rússia e pode comprometer o fluxo de apoio militar e financeiro à Ucrânia.
Fonte: metropoles.com/Manuela de Moura