Além do Contracheque: Por que a Mente Governa o Bolso?

*Graziela Gonçalves

Muitos de nós, servidores públicos, crescemos ouvindo que a aprovação em um concurso seria o fim de todas as nossas preocupações financeiras. No entanto, a realidade nos corredores das repartições revela um cenário contrastante: um alto índice de endividamento e um estresse constante com o saldo bancário.

Por que, mesmo com a estabilidade, tantos colegas se veem presos em ciclos de juros?

A resposta não está na planilha de Excel, mas na nossa cabeça. Isso mesmo, a forma como lidamos com o dinheiro tem muito mais a ver com nosso emocional do que com conhecimento técnico. Até porque, se assim não fosse, todos os economistas ou contadores seriam milionários.

Um dos livros que mais mudou minha forma de pensar o dinheiro foi o best-seller de autoria de Morgan Housel, A Psicologia Financeira, do qual extraio essa frase: “O sucesso financeiro não é uma ciência técnica. É uma habilidade comportamental.”

Diante disso, fica mais plausível a compreensão de que um cargo público, em sua grande maioria estável, com aquilo que sonhamos do “salário garantido” não é capaz de garantir a estabilidade financeira aos servidores. Aliás, muito pelo contrário, essa estabilidade é um grande atrativo para bancos e financeiras na oferta incessante de crédito consignado na folha, com baixíssimo risco e grande “solução” para o servidor.

É assim que se cai no conto da sereia.

Não é de hoje que temos visto notícias sobre o crescente número de endividamento dos brasileiros. O percentual apurado em dezembro de 2025 foi de 78,9%, o maior nível em toda série história da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) para mês de dezembro, apurado e divulgado pela CNC – Confederação Nacional de Bens, Serviços e Turismo.

Esse número representa as pessoas que possuem algum tipo de dívida como cartão de crédito, carnê de loja e empréstimos. Enquanto na iniciativa privada o medo é a inadimplência (contas atrasadas), no serviço público o drama é o superendividamento. O servidor está “em dia” com o banco, pois o desconto é direto na fonte, mas está “em atraso” com a própria qualidade de vida e pior, com seu futuro.

O crédito consignado é o verdadeiro Cavalo de Troia dos servidores e digo isso por experiência própria. Vendido como um benefício, mas, psicologicamente, ele aniquila a percepção de perda. Quando o dinheiro sai do contracheque antes de passar pelas nossas mãos, deixamos de sentir a “dor” do pagamento. Isso cria uma desconexão emocional da dívida e da própria renda: passamos a acreditar que o nosso salário é apenas o valor líquido reduzido, enquanto o banco se torna o “sócio oculto” do nosso trabalho por décadas.

Como ensina o clássico O Homem Mais Rico da Babilônia, a riqueza é construída com o que você retém, e não com o que você antecipa. Ao comprometer a margem, estamos, na verdade, alugando o nosso futuro para pagar o nosso presente.

Muitas vezes, o dinheiro é usado para anestesiar frustrações ou projetar um status que a pressão social exige. O endividamento no serviço público raramente nasce da falta de cálculos, mas de decisões emocionais tomadas em momentos de cansaço. Como destaca Housel, “ninguém é louco”; todos tomamos decisões baseadas na nossa história pessoal e no momento emocional em que vivemos.

É claro que nem toda dívida é ruim. Acredite! A dívida contraída para financiar a aquisição de bens ou insumos que trarão renda, como um imóvel para aluguel, equipamentos para um empreendimento, conhecimento para uma nova atividade como renda extra são bons exemplos de uma “dívida boa” e que a nova renda a ser gerada será capaz e arcar com o financiamento/consignado e ainda dar lucro.

O grande problema é quando o empréstimo é utilizado como extensão do salário, assim como o limite do cartão de crédito, cheque especial, para aquisição de bens, arcar com custo de vida em um padrão que não cabe no bolso, querer ajudar familiares com empréstimos que nunca serão quitados e assim, ver seu trabalho sendo consumido por infindáveis parcelas que o acompanharão para muito além da aposentadoria.

Tenho visto, no meu trabalho de planejadora financeira, famílias com mais de 50% do salário comprometido com dívidas. Em um dos casos, o valor da hipoteca da casa e dos consignados realizados para a nova mobília fez com que o salário do casal não fosse mais capaz de manter o padrão da família, o que ocasionou outros consignados para fechar a conta do mês e aí então, virou uma bola de neve.

Solução para esse caso: a racional ou emocionalmente aceita? A racional é vender a casa, quitar os empréstimos, baixar o padrão de vida, fazer aquele esforço hercúleo por um tempo, com envolvimento de toda família, até que tudo se estabilize e, claro, antes de pensar em comprar outra casa ou trocar o carro, será a criação de uma reserva de emergência para evitar novo aperto para ser socorrido nos consignados no futuro.

A solução emocionalmente aceita? Buscar novo cargo ou renda extra. Apesar de parecer loucura o que vou dizer, mas é a pura verdade: muitas vezes ganhar mais não é a solução para os problemas.

A regra de ouro de George S. Clason permanece urgente: “Uma parte de tudo o que você ganha pertence a você.”

Para o servidor, isso significa romper a lógica de que “o que sobra vira poupança” (pois nunca sobra). A liberdade começa quando decidimos nos pagar primeiro, tratando o nosso futuro como a conta mais importante do mês.

Dinheiro não é racional, é emocional. E esse assunto pode nos levar a infinitas abordagens e exemplos, mas o meu objetivo neste pequeno texto é te levar à reflexão sobre como está a sua relação com o dinheiro?

Precisa de ajuda? Comece aprendendo mais sobre educação financeira. Planejar a forma como, quando e onde gastamos nosso dinheiro, não quer dizer que teremos que nos privar de fazer o que gostamos, mas sim para nos dar liberdade.

Um servidor endividado adoece e perde sua autonomia.

Reconhecer que o dinheiro é emocional é o primeiro passo para retomar o controle. Que possamos aplicar a sabedoria milenar com a consciência psicológica de hoje para transformar nosso contracheque em um instrumento de paz e não de ansiedade.

Para te ajudar a começar hoje, trago aqui 3 dicas práticas:

  1. A Regra dos 10% (O “Pague-se Primeiro”): separe pelo menos 10% do seu salário assim que ele cair, antes de pagar qualquer conta. Se a margem está apertada, comece com 1% ou 5%, mas estabeleça o hábito. Guardar é a sua primeira linha de defesa.
  2. Viva em um degrau abaixo da sua renda: não aumente seu padrão de vida na mesma velocidade que seus reajustes ou progressões de carreira.
  3. Crie uma reserva para emergências: no serviço público, tendemos a achar que o risco é zero. Mas reformas administrativas e inflação existem. Tenha uma reserva de emergência que não dependa de empréstimos. A paz de espírito é o maior dividendo que o dinheiro pode pagar.

* Graziela Gonçalves, especialista em planejamento financeiro. Graduação em Direito, especialista em Direito Administrativo e Direito Processual Civil. É servidora pública no Poder Judiciário Federal com mais de 20 anos de carreira.

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