Bolsonaro se complicou também por causa de suas bravatas

Presidente Jair Bolsonaro (PL) durante discurso para apoiadores após a comemoração do Bicentenário da Independência do Brasil/Foto: Reprodução/Jovem Pan News

Mesmo inelegível, quando havia pelo menos um fiapo de esperança de que pudesse reverter sua situação política, mostrava força impressionante para vencer Lula nas eleições

Bolsonaro caiu em desgraça. Preso, doente, afastado dos familiares, amigos e eleitores. Apenas um rascunho daquele presidente vigoroso que carregava multidões pelo país afora. Foi a maior liderança conservadora da história do Brasil.

Mesmo inelegível, quando havia pelo menos um fiapo de esperança de que pudesse reverter sua situação política, mostrava força impressionante para vencer Lula nas eleições. Sua musculatura política é tão poderosa que só o fato de indicar seu filho Flávio Bolsonaro para concorrer já coloca o zero um entre os nomes competitivos nas pesquisas.

Sair ou ficar dentro das quatro linhas?

Onde foi que Bolsonaro errou? Essa é uma pergunta recorrente. Condenado pela Justiça, mas com seguidores que não se convenceram totalmente. Criticado por muitos de seus aliados por se manter dentro das quatro linhas da Constituição. Não foram poucos os que estimulavam o então presidente a chutar a porta com os dois pés.

Hoje é possível ouvir que boa parte dos eleitores de Bolsonaro ficou decepcionada com ele. São pessoas que o consideram enfraquecido, sem iniciativa para enfrentar de peito aberto “o sistema”. Para esse grupo, a política deveria ser um ato de ruptura permanente, e o líder, um personagem disposto a levar o conflito até as últimas consequências.

A tentação da bravata

O equívoco de Bolsonaro, todavia, foi na direção oposta das reclamações daqueles que o levaram à presidência. Não chutou a porta com os dois pés, mas meteu os pés pelas mãos. Fez bravatas indevidas. Falou o que não deveria dizer. Prometeu o que não poderia cumprir.

Falava, esbravejava, mas não saía do discurso. Todas as vezes que estufava o peito para vociferar, os conservadores pensavam: agora vai. E o bom senso indagava: mas vai para onde? Será que alguém imaginava que montaria um ringue na Praça dos Três Poderes para chamar seus desafetos para briga?

Palavras sem filtro

Depois de bravatear, passava um dia, dois, três, uma semana, e tudo continuava do mesmo tamanho. As cenas protagonizadas por Bolsonaro lembravam as palavras de Cervantes: “Enquanto se ameaça, descansa o ameaçado”. De ameaça em ameaça não cumprida, os créditos daquele “bravo” chefe do Executivo iam se esvaindo e corroendo a confiança até mesmo dos mais fiéis.

Vale a pena recordar momentos emblemáticos desses desvarios. Empolgado com a presença da multidão pronta a aplaudir cada letra que pronunciasse, caía na armadilha de fazer a boca trabalhar mais rápido que os filtros do pensamento. No populismo retórico, a palavra inflamada substitui o projeto, e o gesto protocolar ocupa o lugar da ação concreta.

Acabou, porra!

Um instante simbólico ocorreu em 28.05.2020. Revoltado com decisão do ministro Alexandre de Moraes, que havia determinado buscas contra apoiadores do governo, desabafou: “Acabou, porra!”. Logo depois tentou amenizar: “Me desculpem o desabafo. Acabou!”. E não acabou nada. Teve de recuar para não complicar a própria situação.

Os bolsonaristas tentavam explicar: “O Capitão é estrategista. Aguarde”. Só que a tática não saiu da cartilha.

Eu autorizo

Em abril de 2021 voltou a esbravejar. Conclamou a população: “Estou aguardando o povo dar uma sinalização”. No 1º de maio, manifestantes foram às ruas com o grito: “Eu autorizo, eu autorizo”.

A manifestação foi tão retumbante que até o próprio Bolsonaro se surpreendeu. Renovou o acordo: “Vamos dar o último aviso”.

7 de setembro

A turma comprou a briga e se mobilizou na Avenida Paulista. Foi uma reunião impressionante. Estava claro que Bolsonaro não tinha ideia do que fazer. Pegar um cabo e um soldado e bater na porta do STF? Fora de cogitação. As Forças Armadas não estavam dispostas a aplicar o artigo 142. Qual seria o próximo passo? Mais um pedido de autorização?

Sem dizer o que pretendia fazer, voltou a atacar o ministro. Dois dias depois, aconselhado por Michel Temer, divulgou uma carta amenizando suas declarações, dizendo “não ter tido a intenção de agredir os poderes”.

Todas essas bravatas poderiam ter sido evitadas. Ele não criaria expectativas que não poderia cumprir nem teria aprofundado o antagonismo institucional. A política exige palavra responsável: quando o discurso promete ruptura, mas entrega acomodação, o líder perde autoridade simbólica e se transforma em caricatura de si mesmo. Na política, bravata sem ação é o caminho mais curto para a irrelevância.

Tudo indica que Flávio Bolsonaro adota comportamento distinto do pai, mais comedido e conciliador. Talvez esse seja o maior legado que Bolsonaro tenha deixado ao filho: não como fazer, mas como não fazer. Siga pelo Instagram: @polito

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Fonte: jovempan.com.br/Por Reinaldo Polito

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