Protestos no Irã poderão ter causado mais de 36 mil mortos, dez vezes acima dos números oficiais
O líder supremo do Irão, Ali Khamenei, terá ordenado às forças de segurança que recorressem a “quaisquer meios necessários” para “esmagar” os protestos, incluindo ordens explícitas para disparar a matar, sem demonstrar misericórdia
Estima-se que mais de 36 mil pessoas tenham sido mortas no auge da repressão aos protestos no Irão, entre 8 e 9 de janeiro, segundo dados baseados em documentos confidenciais, testemunhos no terreno e informações do próprio Ministério da Saúde iraniano. O número é cerca de dez vezes superior ao balanço oficial divulgado pelas autoridades de Teerão.
De acordo com o The New York Times, o líder supremo do Irão, Ali Khamenei, terá ordenado às forças de segurança que recorressem a “quaisquer meios necessários” para “esmagar” os protestos, incluindo ordens explícitas para disparar a matar, sem demonstrar misericórdia.
Embora já fossem considerados os protestos mais mortíferos desde a instauração da República Islâmica, novas estimativas indicam que os números reais poderão ser brutalmente superiores aos reconhecidos oficialmente.
A revista TIME, citando dois altos responsáveis do Ministério da Saúde iraniano, aponta que cerca de 30 mil pessoas terão morrido apenas nos dias 8 e 9 de janeiro, os mais violentos da onda de contestação iniciada em finais de dezembro, desencadeada por uma grave crise económica e financeira.
Estes dados coincidem com estimativas da plataforma Iran International, ligada à oposição iraniana, que aponta para 36.500 mortos, com base numa compilação de documentos classificados, relatos de profissionais de saúde, testemunhas oculares e familiares das vítimas.
Em contraste, o último balanço oficial do regime, divulgado a 21 de janeiro, refere 3.117 mortos — número que, ainda assim, já superaria largamente o registado em 2022, quando a morte de Mahsa Amini desencadeou protestos que causaram cerca de 550 vítimas mortais.
Imagens divulgadas nas redes sociais mostram um cenário descrito como caótico, incluindo vídeos à porta do Instituto de Medicina Legal de Teerão, onde dezenas de sacos para cadáveres estariam espalhados, enquanto famílias procuravam identificar vítimas.
Durante a fase mais crítica dos protestos, o Irão foi colocado sob um apagão quase total das comunicações, com cortes prolongados no acesso à Internet e às redes telefónicas. Na altura, o presidente dos Estados Unidos prometeu que havia “ajuda a caminho” para o povo iraniano, mas acabou por descartar uma intervenção militar após garantias do regime de que manifestantes não seriam enforcados. Caso os números agora avançados se confirmem, a Casa Branca poderá ser pressionada a rever essa posição.
Alguns relatos indicam ainda que um porta-aviões norte-americano se encontra em deslocação para a região, embora não exista confirmação oficial de uma iminente ação militar.
Protesto em Lisboa pede intervenção internacional
Entretanto, mais de 200 pessoas manifestaram-se em Lisboa, este domingo, contra a repressão no Irão e apelaram à intervenção da comunidade internacional para travar aquilo que classificaram como um “holocausto iraniano”.
Os manifestantes exibiam bandeiras do Irão, Portugal, Israel e Estados Unidos, bem como cartazes com imagens de Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979, e do presidente norte-americano Donald Trump. Algumas mensagens apelavam explicitamente a uma intervenção externa.
Entre os participantes esteve a presidente da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, que defendeu uma ação concertada da União Europeia para pôr termo à repressão. “O regime iraniano é autocrático, ditatorial e persegue e mata pessoas de forma bárbara”, afirmou.
Masoud Ardestani, estudante iraniano de doutoramento em Portugal, alertou que o número de mortos “pode chegar às 100 mil” e apelou a uma ação internacional, incluindo dos Estados Unidos, Israel e Europa. “O povo do Irão quer um país secular e democrático”, afirmou.
Outros participantes sublinharam que o povo iraniano “não consegue fazer isto sozinho” e pediram maior envolvimento internacional.
Internet limitada a 20 minutos por dia para comerciantes
No Irão, os comerciantes passaram a ter acesso à Internet apenas durante cerca de 20 minutos por dia, sob supervisão, no 17.º dia consecutivo de apagão digital. A medida foi anunciada pelo presidente da Câmara de Comércio Irão-China, Majid Reza Hariri, que reconheceu que o tempo disponível é insuficiente para manter a atividade económica.
Segundo a organização NetBlocks, cada dia de interrupção da Internet custa ao país mais de 37 milhões de dólares. As autoridades iranianas afirmam não dispor ainda de dados sobre o impacto económico da medida.
A República Islâmica desligou a Internet a 8 de janeiro, dia em que os protestos atingiram o auge. Enquanto Teerão culpa os Estados Unidos, Israel e “agentes terroristas” pelas mortes, organizações como a Amnistia Internacional denunciam a repressão estatal e descrevem os acontecimentos como um “massacre”.
Fonte: sol.iol.pt/internacional