Livro sobre o mundial de 82 destrincha uma das derrotas mais dolorosas da história
Espanha, Sevilha, 18/06/1982. Time posado da Seleção Brasileira de Futebol antes da partida contra a Rússia, realizada no Estádio Ramón Sánchez Pizjuán, em Sevilla, válida pela Copa do Mundo de 82. Da esquerda para a direita, em pé: Valdir Perez, Oscar, Leandro, Falcão, Luizinho e Júnior; agachados: Dirceu, Sócrates, Serginho, Zico e Éder. A equipe brasileira venceu por 2 a 1 com gols de Sócrates e Éder/ARQUIVO/ESTADÃO CONTEÚDO
A Copa do Mundo faz parte da nossa memória afetiva. Todos se lembram de um jogo marcante, de um gol, de uma narração emocionante e onde e com quem assistimos a um jogo. A competição disputada na Espanha, em 1982, foi talvez o maior exemplo de identificação entre a torcida e a seleção brasileira. “Eu queria ter sido tetracampeão do mundo aos 14 anos, não aos 26. É assim, de maneira bem afetiva, que costumo resumir meu fascínio pela Copa (e pela seleção brasileira) de 82. Um fascínio que é também de toda uma geração, a minha, formada por pessoas nascidas entre a segunda metade da década de 1960 e a primeira dos anos 1970 (…)”, relata Celso Unzelte, um dos mais consagrados jornalistas e pesquisadores de futebol, na apresentação de “82 Uma Copa para sempre” (Letras do Brasil/2022). A obra foi escrita junto com Gustavo Longhi de Carvalho, outro grande pesquisador: “ (…) A Copa de 82 fascina a muitos que a acompanharam e a muitos (como eu) que a conheceram mais a fundo depois dela ocorrer. Por isso, ela é uma Copa para sempre, (…)”. Neste caso, eu me identifico mais com Gustavo, pois tínhamos cinco anos em 1982.
A seleção que disputou a Copa na Espanha é, talvez, a única que subverte a perversa cultura esportiva nacional, que execra os perdedores e não exalta os vencedores como deveria. A derrota para a Itália, em 5 de julho, no Estádio Sarriá, em Barcelona, por 3 a 2, não tirou o brilho da equipe comandada por Telê Santana.
O país ainda vivia a ditadura, mas os tempos eram outros. Naquele ano, a população iria às urnas escolher os governadores e, dois anos depois, participaria da campanha das “Diretas Já”. Em meio à grave crise econômica brasileira, a Copa disputada na Espanha gerou um clima de euforia, principalmente pelas exibições de gala da seleção canarinho. Depois de dois mundiais com desempenhos decepcionantes (1974 e 1978), finalmente o Brasil voltou a jogar bem. Até hoje, aquela equipe é reverenciada e lembrada pelo futebol arte. Zico, Falcão, Sócrates, Éder, Júnior, Cerezo e outros craques faziam parte da melhor geração desde 1970, ano do tricampeonato.
A obra de Celso e de Gustavo nos transporta para momentos de emoção e de alegria. Quando estamos lendo as páginas de “82 Uma Copa para sempre”, ficamos torcendo para que o desfecho daquele mundial seja diferente, com o Brasil campeão. Entretanto, o texto, com rigor jornalístico acurado, nos relembra que o futebol é caprichoso e nem sempre o melhor consegue vencer. O livro da dupla de jornalistas é comparável com o monumental “Anatomia de uma derrota”, de Paulo Perdigão, que esmiúça a derrota brasileira na Copa de 1950, dentro do Maracanã, para o Uruguai. Outra tragédia esportiva nacional.
Encerro esse “Memória da Pan” com uma frase de Celso Unzelte que está no livro: “(…) nós, seres humanos, não temos saudade das coisas – mas, sim, de nós mesmos na época em que elas aconteceram (…).”
A Copa de 1982 ainda está sendo disputada na memória de todos nós e tenho certeza que, um dia, o Doutor Sócrates ainda vai erguer a taça de campeão.
Fonte: jovempan.com.br/Por Thiago Uberreich