Cachoeira Boca da Onça seca na época das águas revolta moradores e turistas

Em pleno regime de chuvas, curso da água deixou de irrigar a Boca da Onça (Arquivo pessoal)

A água do rio Salobra já não desce a cachoeira Boca da Onça, em Bodoquena, município distante 265 quilômetros de Campo Grande, deixando moradores e visitantes indignados. A cachoeira, com 156  metros, é a  maior de Mato Grosso do Sul é considerada um principais dos cartões postais da região, mas o processo de “assassinato”, como classificam os moradores da região, é contínuo, não encontra eco entre os gestores sul-mato-grossenses, e a exuberância da queda d’água corre o risco de compor apenas fotografias, vídeos e a memória de quem a valoriza.

O jornalista Gerson Jara, que tem uma propriedade na região há mais de 20 anos, lamenta que, há pelo menos quatro, a “morte” da cachoeira esteja em curso acelerado. Jara conta que, apesar das chuvas, a água que desceu foi pouca e logo secou.

A causa do problema, avalia, estaria no desvio do principal leito do córrego que abastece a Boca da Onça, prática de empresários da região. “Nem mesmo as chuvas acima da média têm sido suficientes para a vazão”.

Cachoeira sem água choca professora

A cachoeira, integrante do complexo de belezas naturais da Serra da Bodoquena, atrai turistas em busca de contato com a natureza. No entanto, relatos recentes descrevem o local seco. Foi o que chocou a professora Bartolina Ramalho Catanante, em visita recente à região, a cena foi surpreendente. “É tempo de chuva. Então, numa situação normal, ela já estaria com a água e esse seria um problema novo, de não ter água na cachoeira”.

A justificativa climática parece não se sustentar diante dos resultados meteorológicos. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia apontam que dezembro foi marcado por chuvas regulares e acima da média na região sul de Mato Grosso do Sul, com volumes superiores a 150 mm. A previsão para janeiro também indica a ocorrência de pancadas de chuva, ainda que de forma irregular. A persistência da seca mesmo com precipitações levanta questões sobre a origem do problema.

Legislação ambiental ajuda a estimular desrespeito à natureza

Na avaliação de Jara, a legislação ambiental permite atividades potencialmente impactantes em áreas sensíveis e contribui para o esgotamento dos recursos naturais locais. Ele menciona que a lei de licenciamento de Mato Grosso do Sul autoriza o plantio de soja em cabeceiras de rios, bem como atividades de mineração, o que poderia estar influenciando a disponibilidade hídrica.

O jornalista explica que a escassez afeta um conjunto de propriedades, como os moradores do assentamento Canaã. Para além disso, há a fauna, diretamente impactada pela morte da cachoeira em plena estação das águas.

A região de Bodoquena é um polo de ecoturismo reconhecido nacionalmente, banhada por rios famosos como o Azul, o Salobra e o da Prata (este último no município vizinho de Jardim). Esses cursos d’água são conhecidos pela transparência, a presença de fervedouros e por sustentarem uma rica biodiversidade. A secagem de um atrativo como a Boca da Onça representa, portanto, não apenas um dano ambiental, mas uma potencial ameaça ao turismo local.

A situação expõe um conflito que vai além do cenário paisagístico imediato, tocando em temas sensíveis como a gestão dos recursos hídricos, a aplicação da legislação ambiental e o equilíbrio entre atividades econômicas e a conservação do patrimônio natural.

Cachoeira é uma das maiores belezas naturais de MS no período das águas (Foto: Arquivo)

Fonte: ojacare.com.br/By Sandra Luz, de Portugal

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