Folha revela repasses milionários envolvendo Banco Master, JBS e filho de ministro do STF

Reportagem da Folha de S.Paulo revela nesta quinta-feira (19/03/2026) que o Banco Master e a JBS repassaram R$ 18 milhões a uma empresa de consultoria que realizou pagamentos ao advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kássio Nunes Marques. Os dados constam de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e abrangem movimentações entre agosto de 2024 e julho de 2025, trazendo novos elementos a um caso que envolve relações empresariais, assessoria tributária e possíveis conflitos de interesse no entorno da mais alta Corte do país.

Repasses milionários e pagamentos identificados pelo Coaf

De acordo com os documentos analisados, o Banco Master e a JBS transferiram R$ 18 milhões à empresa Consult Inteligência Tributária, que, por sua vez, realizou pagamentos ao escritório do advogado Kevin Marques.

Entre os valores identificados por amostragem, o Coaf apontou:

  • 11 pagamentos ao advogado
  • Total de R$ 281.630,00 recebidos
  • Transferências realizadas por meio de seu escritório individual, registrado na OAB

Os repasses foram classificados como parte de serviços de natureza tributária, embora o detalhamento completo das atividades prestadas não tenha sido plenamente esclarecido.

Atuação profissional e justificativas apresentadas

O advogado Kevin de Carvalho Marques afirmou que os valores recebidos são lícitos e decorrentes do exercício regular da advocacia, com atuação voltada ao chamado “fisco administrativo”.

Em nota, o escritório declarou:

  • Não houve atuação em processos no STF
  • Os serviços prestados foram de natureza técnica e consultiva
  • Há tentativa de “criminalização da advocacia” e violação do sigilo profissional

Registros públicos indicam que o advogado tinha cerca de um ano de experiência na OAB quando passou a atuar profissionalmente, com foco declarado no sistema tributário brasileiro.

Estrutura da consultoria e origem dos contratos

A empresa Consult Inteligência Tributária, responsável pelos pagamentos, foi criada em 2022 por Francisco Craveiro de Carvalho Junior, empresário e contador com atuação em Teresina (PI), cidade natal do ministro Nunes Marques.

A consultoria mantém:

  • Endereços em Barueri (SP) e Brasília (DF)
  • Atuação voltada à assessoria tributária empresarial
  • Relações contratuais com grandes empresas, como a JBS

A JBS confirmou que contrata consultorias especializadas para lidar com a complexidade tributária brasileira, incluindo a Consult. Já o Banco Master não se manifestou sobre o caso.

Conexões institucionais e histórico profissional

Kevin Marques também figura como procurador da Refit (antiga Refinaria Manguinhos) no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).

O vínculo chama atenção pelo contexto institucional:

  • Seu pai, Kássio Nunes Marques, foi desembargador do TRF-1
  • Posteriormente, foi indicado ao STF em 2020 pelo então presidente Jair Bolsonaro

Embora não haja evidência formal de irregularidade na atuação profissional, o conjunto de relações institucionais levanta questionamentos sobre proximidade e potencial conflito de interesses.

Mensagens e contatos com o Banco Master

Outro ponto relevante revelado na investigação envolve registros de conversas entre o ministro Nunes Marques e o banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master.

Segundo informações obtidas pela Polícia Federal:

  • O número do ministro estava salvo no celular de Vorcaro desde junho de 2024
  • Foram identificadas conversas entre ambos
  • O teor foi descrito como “superficial”, sem indícios diretos de irregularidade

O ministro afirmou não possuir relação próxima com o empresário e declarou não se recordar das trocas de mensagens.

Tentativa de direcionamento no STF

O caso ganhou dimensão adicional quando, no final de 2025, a defesa de Daniel Vorcaro solicitou que a investigação fosse encaminhada diretamente ao gabinete de Nunes Marques no STF.

A Presidência da Corte, contudo:

  • Rejeitou o pedido de direcionamento
  • Determinou distribuição por sorteio
  • O processo foi encaminhado ao ministro Dias Toffoli

A decisão reforça procedimentos institucionais tradicionais da Corte, evitando concentração de casos sensíveis em gabinetes específicos.

Folha: jornalgrandebahia.com.br

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