Entre o Morde e o Assopra: O paradoxo da saúde mental na Segurança Pública

Por Felipe Féo

Os mecanismos que nos adoecem são cada vez mais sofisticados. Por isso, problematizamos aqui campanhas como o Janeiro Branco e o Setembro Amarelo, iniciativas que têm como objetivo alertar sobre a saúde mental, prevenir adoecimento e promover ações entre os trabalhadores.

Em nosso texto, não iremos cair na crítica rasa de que saúde mental é uma necessidade do ano inteiro. As muitas campanhas vinculadas aos meses são valiosas e cumprem uma função importante de promover debates. Nosso ponto aqui é outro: essas duas campanhas não são como as outras.

O Outubro Rosa, por exemplo, procura conscientizar sobre o câncer de mama, um problema que acomete muitas mulheres independente de sua classe social ou função que ocupam. Da mesma forma, o Novembro Azul fala sobre o câncer de próstata, que afeta homens de diferentes postos de trabalho. O mesmo não ocorre com o Setembro Amarelo e o Janeiro Branco. Grupos específicos de trabalhadores são afetados de formas diferentes por fatores adoecedores.

Observe que a lógica do câncer é biológica e transversal, o que não pode ser aplicada aos fenômenos de saúde mental, cujas patologias são decorrentes, em sua maioria, do trabalho e de um sistema de produção adoecedor.

Sendo direto, campanhas como o Janeiro Branco e o Setembro Amarelo acabam sendo ferramentas de garantia da manutenção de um sistema de trabalho adoecedor. Elas incentivam e cultivam a crença de que os problemas de saúde mental que afetam os servidores, são fenômenos particulares e íntimos. Ao exaltarem a importância de “buscar ajuda”, “fazer terapia” e “não sofrer em silêncio”, elas reduzem o problema ao indivíduo, ignorando o fato de que o próprio ambiente de trabalho — funcionando tal qual se propõe a funcionar — é quem produz o adoecimento.

Mas vamos deixar claro: Busque ajuda. Ofereça amparo. Não sofra em silêncio. Sobreviva. Isso é absolutamente necessário. O que é de fato muito problemático, é que as ações voltadas à saúde mental se limitam ao enfrentamento do efeito, ao passo que negligenciam a causa. Como consequência, estamos sendo tacitamente sendo responsabilizados pelo nosso adoecimento.

Para ilustrar nosso argumento, vamos tomar como exemplo uma outra campanha de saúde pública. Nos anos 90, epidemias de dengue impuseram medo, atingiram muitas pessoas, e ceifaram muitas vidas. Desde então nos habituamos com campanhas de rádio, TV e jornal sobre prevenção e tratamento da dengue. Em uma propaganda, éramos ensinados a não consumir certos remédios, aprendemos a fazer soro caseiro e aprendemos a reconhecer sintomas. Em outras, éramos alertados sobre criadouros de mosquitos, e técnicas para evitar a proliferação do mosquito.

Agora imaginemos que as peças publicitárias sobre prevenção e o cuidado com a “água parada” não existissem. Seríamos ensinados a tratar a dengue, mas continuaríamos a criar e manter focos do mosquito transmissor. Não faria sentido, bem como não faz sentido uma campanha que nos estimule a buscar ajuda para um problema cujo “criadouro” segue ativo e imaculado.

No caso da segurança pública, o cenário é ainda mais grave. É um trabalho naturalmente estressante, potencialmente traumático e invariavelmente arriscado. Aliado a isso, temos:

  • Jornadas exaustivas de trabalho;
  • Pouco amparo institucional;
  • Baixa remuneração em comparação a profissionais da mesma área em outros estados;
  • Trabalhos que exigem maior cautela e que afetam a vida particular fora do serviço;

O resultado estatístico é devastador. Dados do Fórum de Segurança Pública apontam Mato Grosso do Sul como o segundo estado em que, proporcionalmente, mais perdemos policiais para o suicídio. A média de policiais que recorrem ao autoextermínio no MS é o dobro da média nacional (de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2025 e 2024).

A chance de um policial tirar a própria vida com uma arma do Estado é maior do que a desse policial perder a vida em um confronto no exercício de sua função.

Façamos justiça: Os mecanismos de enfrentamento e acolhimento em nosso estado são numerosos. Os militares contam com uma policlínica com um time robusto de excelentes psicólogas e psicólogos para os militares e seus familiares. A Polícia Civil conta com a CAPE (Coordenadoria de Apoio Psicossocial e Espiritual), sempre com a porta aberta. Na SEJUSP há o CABS (Centro de Apoio Biopsicossocial), que já salvou a vida de muitos de nós. O Estado se preocupa em dar encaminhamento e recurso ao servidor já em sofrimento. Mas o Estado parece não se preocupar com sua parcela de responsabilidade no processo de adoecimento.

Ora, como poderemos, na posição de servidores, louvar e celebrar tais iniciativas de saúde mental sendo que a causa segue mantida?

Essas campanhas acabam cumprindo a função de manter a tropa adoecida, pois tornam invisível a responsabilidade das políticas administrativas. Isentam o Estado da responsabilidade de promover condições menos hostis e jogam nos ombros do trabalhador o peso de “curar-se” para continuar produzindo em um sistema que o massacra. Mais do que amparar o profissional em estado psíquico já adoecido, é dever do Estado assumir a responsabilidade de parar de adoecê-lo.

Felipe Féo é investigador da PCMS, Psicólogo e Presidente da OFIPOL-MS (Associação dos Oficiais Investigadores de Polícia do Estado do Mato Grosso do Sul)

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