Categorias se unem ao Fórum dos Servidores de MS e deflagram mobilizações na ALEMS contra baixo reajuste de 3,81% e isenções bilionárias
Com galerias lotadas e críticas à política de isenção fiscal, categorias exigem reajuste com ganho real e fim da falta de diálogo com o Executivo
Ocupando o plenário e do saguão da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS), cerca de 250 servidores públicos estaduais protagonizaram, na manhã desta terça-feira (31), o primeiro grande ato de uma mobilização realizado neste ano de 2026. Sob a liderança do Fórum Estadual dos Servidores, as categorias protestam contra a sanção da Revisão Geral Anual (RGA) de apenas 3,81%, imposta pelo Governo do Estado sem negociação prévia.
O clima foi de indignação. Com cartazes, palavras de ordem e a participação em peso de sindicatos da educação, segurança pública, saúde, educação, entre outras categorias, em que os manifestantes deixaram claro que o percentual sancionado pela Lei Estadual 6.562/2026 é insuficiente para repor a inflação e ignora as perdas acumuladas das carreiras.

Silêncio do Governo

Para os coordenadores do movimento, o principal combustível da revolta é o autoritarismo da gestão estadual. Ricardo Bueno, coordenador do Fórum, destacou que o projeto chegou ao Legislativo sem que as entidades fossem recebidas. “O reajuste veio sem diálogo. Ninguém foi ouvido. O governo simplesmente enviou a revisão geral”, desabafou.

O coordenador, Mário Márcio dos Santos Jurado, do SINPOL-MS, reforçou que a mobilização reavivou o sentimento de combatividade do funcionalismo.
“A falta de diálogo do governador passa por temas específicos e se estende a pautas gerais como RGA, Previdência e Concursos. O Fórum mostrou hoje a necessidade de nos posicionarmos em grupo e reavivou o sentimento de pertencimento”, afirmou Jurado.
O Contraste Financeiro
Um dos pontos mais sensíveis do protesto foi a política fiscal do Estado. O deputado Pedro Kemp (PT), em discurso na tribuna, questionou como o Governo alega dificuldades financeiras para o funcionalismo enquanto amplia benefícios para o setor privado.
“Como o governo alega dificuldade financeira e, ao mesmo tempo, concede isenções fiscais que passam de R$ 11 bilhões, podendo chegar a R$ 13 bilhões? Não podemos aceitar que o governo trate assim, porque quem toca o Estado é o servidor”, ressaltou o parlamentar.
Ricardo Alexandre Corrêa Bueno, do SINTSS, foi ainda mais incisivo ao comparar os valores.
“Se você somar o dinheiro da saúde, educação, segurança e o duodécimo dos poderes, é menor que a isenção que nós temos no Estado hoje. São benesses para grupos pequenos enquanto o Estado vai sendo abandonado”, denunciou Ricardo, lembrando ainda que a defasagem salarial dos últimos oito anos já ultrapassa os 40%.

Enquanto o governador Eduardo Riedel (PP) sancionou o índice de 3,81% — que apenas repõe parte da inflação, sem ganho real — o Governo do Estado apresentou, nesta segunda-feira (30), um robusto pacote de benefícios fiscais a empresas de MS.
A nova estrutura de Desenvolvimento Produtivo do Estado prevê a desoneração de aproximadamente 80 decretos, beneficiando 12 setores econômicos. A medida abrange desde insumos para irrigação até o setor de medicamentos, contemplando desde microempreendedores até grandes grupos industriais. Para os servidores, a conta não fecha: há recursos para abrir mão de impostos do setor privado, mas falta margem para a valorização do serviço público.

Pautas que vão além do salário
Ainda na sessão desta terça-feira. o Fórum protocolou um ofício à presidência da ALEMS solicitando intermediação junto ao Executivo e a realização de audiências públicas. O movimento elenca problemas estruturais graves:
- Apoio Institucional: Obtenção de suporte formal da Assembleia Legislativa (ALEMS) para as pautas e reivindicações defendidas pelo Fórum.
- Intermediação Política: Atuação da Presidência da ALEMS como ponte junto ao Governo do Estado para garantir a abertura imediata de uma mesa de negociação entre os trabalhadores e o Poder Executivo.
- Diálogo com o Legislativo: Agendamento de uma reunião institucional direta entre os representantes do Fórum dos Servidores e a Presidência da Assembleia.
- Audiência Pública: Realização de um debate amplo na Casa de Leis para discutir temas críticos, incluindo:
1- Valorização dos servidores estaduais;
2- Realização de novos concursos públicos;
3- Combate à terceirização no serviço público;
4- Análise da política de renúncia fiscal (isenções de impostos) praticada pelo Estado.
“Este é apenas o primeiro passo”

A mobilização desta terça-feira foi classificada como o marco inicial de uma jornada de lutas. Fabiano Reis de Oliveira, do SINDIJUS, agradeceu a adesão em massa e enviou um recado direto à Governadoria:
“Este foi apenas o primeiro passo. Outros virão. O servidor público estadual está atento, unido e pronto para lutar pelos seus direitos. O recado é claro: o servidor exige respeito e não aceita que decisões sejam tomadas sem diálogo com quem sustenta o serviço público todos os dias.”
Detran e UEMS em Estado de Greve
O clima de insurgência já transborda para paralisações setoriais. Categorias estratégicas, como os servidores do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) e da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), já declararam estado de greve, sinalizando que a máquina pública pode parar caso não haja recuo do governo.

Bruno Alves da Silva Nascimento, coordenador pelo SINDETRAN, detalhou o sucateamento das estruturas e a indignação da categoria:
“A participação dos servidores do DETRAN vem no sentido de que já não é de hoje que a categoria reclama por concurso, valorização salarial e a terceirização e perda das nossas atribuições e funções. Isso vem sendo feito, o DETRAN tem sido feito de balcão de negócios. Estamos aqui para cobrar justamente o espetáculo de quem foi eleito para representar o povo e não apenas grupos pequenos.”
Ao final do ato, as lideranças confirmaram que novas estratégias de mobilização serão adotadas nas próximas semanas.

Histórico de Baixos Reajustes
A insatisfação do Fórum dos Servidores é alimentada por um histórico de reajustes que, segundo as entidades, não acompanham as necessidades das famílias dos trabalhadores. Durante o mandato de Riedel, os índices foram:
| Ano | Reajuste Sancionado |
| 2023 | 5,00% |
| 2024 | 3,73% |
| 2025 | 5,06% |
| 2026 | 3,81% |
O projeto atual tramitou em regime de urgência na ALEMS, sendo aprovado na semana passada com votos contrários apenas da bancada do PT e do deputado João Henrique Catan (Novo).
Mobilização
As entidades que compõem o Fórum buscam a abertura imediata de diálogo. As principais reivindicações incluem:
- Reposição salarial com ganho real (acima da inflação);
- Valorização das carreiras e do serviço público estadual;
- Realização de novos concursos para suprir o déficit de pessoal.
“O objetivo é reforçar a luta das categorias e questionar a apresentação de índices sem qualquer discussão prévia com os representantes dos trabalhadores”, afirma a convocação do movimento.
A mobilização desta terça-feira promete pressionar os parlamentares e o Governo a reavaliarem a política salarial, em um momento onde a economia do estado demonstra fôlego para conceder incentivos fiscais milionários ao setor produtivo.
Perdas acumuladas
A gestão de Riedel tem aculmulado prejuízos salariais ao servidores públicos, assim como o seu antecessor, ex-governador Reinaldo Azambuja que ao comparar a inflação medida pelo INPC e os reajustes concedidos no período de 2015 a 2023, alcançam o percentual de 38,60%, somente na gestão anterior sem somar as perdas do atual governo — anos de 2023 a 2026.
Fonte: Roberta Cáceres / Jornal Servidor Público MS
Fotos: Divulgação