16 de setembro de 2026
CotidianoGeral

O STF não aprendeu o que meu pai me ensinou: ninguém é juiz de si

Crédito: I. A. STF no espelho

Moraes votou no rito do próprio caso, Fux ficou apesar do filho, Cármen Lúcia se envergonhou. Um humorista revisita as lições do advogado da família

Meu pai era advogado e queria que eu fosse também. Não deu. Não nessa encarnação!

Virei humorista, que é uma profissão parecida: a gente também vive de ler o que os outros fazem e apontar onde não fecha.

Mas dois ensinamentos seus ficaram, e eu nem precisei de faculdade. Foram passados na cozinha lá de casa, né?

O primeiro: ninguém é juiz da própria causa. O segundo: suspeita séria não se abafa, se esclarece.

Investigar não é condenar

Pois nesta terça o Supremo Tribunal Federal se reuniu pra decidir se o Alexandre de Moraes pode ser investigado.

Só nisso eu já me perdi. Investigar não é condenar, certo? É o caminho normal de quem quer que a suspeita acabe.

E a suspeita existe. O relatório da Polícia Federal, que o próprio Mendonça tirou do sigilo, mostra dezenas de mensagens do Daniel Vorcaro para um número que seria o do ministro.

Mostra também um contrato de 131 milhões de reais entre o Banco Master e o escritório da mulher dele: 36 parcelas de 3 milhões.

Vorcaro, cobrando o tesoureiro, escreveu que era o contrato mais importante que o banco tinha. Pode ser tudo lícito. É exatamente por isso que se apura.

Mesmo assim, o Moraes participou da votação sobre o rito do caso…

Dele mesmo!

Não votou o mérito, é verdade, votou só se o caso dele seria julgado junto ou separado do caso do Mendonça. Mas quem decide o caminho já decidiu boa parte da chegada. Então, pai… como é que fica o “ninguém é juiz da própria causa”?

O Mendonça também votou. Só que ele também está sob apuração, numa petição paralela. Dois investigados votando sobre como vão ser investigados. E nem nisso concordaram: um quis junto, o outro quis separado.

Agora, olha essa história que o meu pai me contou, e que Plutarco contou antes dele.

Julio César se separou da esposa Pompéia..

Por causa de um boato: um sujeito teria entrado disfarçado numa cerimônia só de mulheres na casa dela. Perguntaram a César se ele achava que ela era inocente. Disse que sim. Então por que se separou? “Porque a mulher de César não pode nem ser suspeita.”

Esse era o padrão há dois mil anos. Hoje é pedir demais pra um ministro do STF.

Quem saiu da sala e quem ficou

A melhor parte da sessão foi que o Dias Toffoli se declarou suspeito e o Nunes Marques, impedido. Pelo menos eles fizeram o que meu pai ensinou: saíram da sala.

Já  Luiz Fux ficou e votou, apesar das mensagens do filho dele com o Vorcaro, que a PF divulgou no mesmo dia. Os dois se chamavam de irmão. O filho negou relação próxima. Pode ser. Mas a mulher de César nem precisou negar.

Ou seja: quase metade do Supremo tem alguma explicação pra dar no maior rombo bancário da história do país.

Um dia inteiro pra saber se um papel vale

Meu pai passou a vida num cartório carimbando papel pra dar validade. O STF passou o dia inteiro discutindo se um relatório da PF vale. Onze ministros, nove votando, e ninguém sabia dizer nem o nome do que estava acontecendo: o Fux disse que não era inquérito, era “apuração”. Flávio Dino respondeu que, se não era inquérito, então tudo que foi feito até ali tinha que ser anulado.

Daí em diante foi ministro acusando ministro. O Dino disse pro presidente Edson Fachin que a capa de um é igual à do outro. O Mendonça chamou o Moraes de mentiroso. O Gilmar Mende s disse pro Mendonça que quem não se dá respeito não merece respeito, e ainda perguntou quem seria o “vazador-geral da República”.

E o Gilmar ainda achou pouco

Disse que a atuação do Mendonça era digna de máfia, e completou: “Até a máfia tem ética.”

Presta bem atenção no que aconteceu ali. Na sessão em que o Supremo discutia se pode investigar o próprio Supremo, o ministro mais antigo da casa foi buscar na máfia o exemplo de conduta.

Não no Código Penal, não na Constituição, não em Rui Barbosa. Na máfia! Meu pai defendeu muito réu na vida, e eu não me lembro de nenhum caso em que a defesa fosse “mas a Cosa Nostra faria diferente”. E ética de máfia a gente sabe qual é. É a de quem não entrega o coleguinha.

Lá fora, um drone foi derrubado pela segurança do tribunal. A nota oficial disse que ele foi “mitigado”. Nem o drone escapou do juridiquês.

A única fala que eu entendi inteira

Aí o Dino pediu vista e ficou pra depois. E a sessão terminou com a Cármen Lúcia dizendo que estava envergonhada e pedindo desculpas ao povo brasileiro. Foi a única fala do dia que eu entendi inteira.

Se eu perguntasse hoje: “Pai, quem vigia os vigias?”, ele, que sabia de tudo, não saberia responder. Mas ele está na única instância que fica acima do Supremo.

Ele queria que eu fosse advogado. Eu sou humorista. Mas hoje ele teria mais material que eu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do iG

Fonte: ultimosegundo.ig.com.br/Por Oscar Filho – humorista

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