Rússia: temores de mobilização crescem com recrutamento forçado do Kremlin
Forças de segurança russas detêm civis na rua e pressionam-nos a assinar contratos militares, numa altura em que surgem informações de que o Kremlin se prepara para uma nova vaga de mobilização para a sua guerra total em curso na Ucrânia.
Em meados de agosto, o projeto russo de defesa dos direitos humanos Idite lesom recebeu 14 pedidos de ajuda de pessoas que afirmam ter sido detidas pelas forças de segurança e obrigadas ou pressionadas a assinar contratos militares, seja em esquadras de polícia, seja diretamente em centros de recrutamento militar.
O projeto, que ajuda russos a evitar participar na guerra, refere que o pico começou a 10 de agosto. “Em julho só houve rusgas pontuais, agora estamos no auge”, disse à Euronews Ivan Chuvilyaev, representante da iniciativa.
Os casos reportados estendem-se de Novorossiysk a Birobidzhan. Homens têm sido detidos na rua com o pretexto de controlo de documentos ou por consumo de álcool em público, nos locais de trabalho e a caminho de casa.
Na região de Penza, os casos têm sido registados desde meados de junho. No mesmo período, o Idite lesom, cujo nome é um jogo de palavras com uma expressão russa equivalente a “desaparece”, registou sete casos de soldados conscritos obrigados ou pressionados a assinar contratos com o Ministério da Defesa russo.
As autoridades prisionais também estão a ser usadas como canal de recrutamento. Segundo Chuvilyaev, representantes do Serviço Federal Penitenciário russo procuram potenciais militares contratados em centros de detenção preventiva e colónias prisionais.
Paralelamente, recrutadores civis procuram pessoas em dificuldade financeira, como devedores e desempregados, através de anúncios de emprego, agências e contactos pessoais.
“Se alguém tem problemas de dinheiro, os recrutadores acabam por encontrá-lo”, afirmou. “As pessoas só percebem em que se meteram quando já estão na frente de combate.”
Desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, no início de 2022, mais de 80 000 pessoas pediram aconselhamento ao projeto, segundo o Idite lesom.
Rússia: mobilização após as eleições?
Responsáveis ucranianos, incluindo o presidente Volodymyr Zelenskyy, têm repetidamente afirmado que as autoridades russas preparam uma nova vaga de mobilização após as eleições para a Duma de Estado em setembro.
Fontes dos serviços de informação ocidentais disseram ao Wall Street Journal que no mês passado foram realizados exercícios de preparação para mobilização na região de Kaliningrado, abrangendo alojamento, abastecimento alimentar e armamento da população.
Os meios de comunicação estatais russos noticiaram exercícios separados na mesma região em julho, descrevendo-os como centrados na defesa contra ataques de drones.
Exercício conjunto russo-bielorrusso AP Photo/RIA-Novosti, Alexei Druzhinin, Presidential Press Service, File
Representantes de ONG que ajudam russos a deixar o país também referem um aumento acentuado dos pedidos de informação desde meados de julho.
“Faz lembrar a situação de 2022, início de 2023”, disse à Euronews um coordenador da iniciativa alemã de direitos humanos inTransit, que pediu para não ser identificado.
“Em muitos pedidos, a ameaça de mobilização surge recorrentemente, como um refrão. As pessoas receiam não conseguir sair mais tarde se não o fizerem agora”, acrescentou o coordenador do inTransit.
“Temem também poder ser forçados a assinar um contrato, mesmo resistindo, ou que alguém falsifique a assinatura em seu nome.”
O coordenador afirmou que pessoas sob investigação, incluindo por acusações de carácter político, que ainda não foram colocadas em centros de detenção preventiva, relatam igualmente pressões de representantes dos serviços prisionais ou de investigadores para assinarem contratos e irem para a guerra, mesmo quando estão proibidas de viajar ou em prisão domiciliária.
Um grupo de russos após atravessar a fronteira pelo posto de controlo de Verkhny Lars, entre a Rússia e a Geórgia, 27 de setembro de 2022. AP Photo/Zurab Tsertsvadze
Agora, um número crescente de russos sem historial em profissões visadas pelo Kremlin, como o jornalismo, a defesa dos direitos humanos ou o ativismo contra a guerra, pondera deixar o país, afirmou o coordenador.
Os pedidos para sair para a Geórgia e a Arménia, países onde os russos podem entrar sem visto, e posterior legalização na UE com base em motivos habituais aumentaram de forma acentuada.
O Registo Único de Dados Militares, criado em maio de 2025, tornou mais difícil sair do país. Depois de recebida uma convocatória e de a pessoa ser introduzida no sistema, a saída torna-se significativamente mais complicada.
“É muito provável que a saída também passe a ser restringida a partir da Bielorrússia”, afirmou o coordenador do inTransit.
“Agora as pessoas percebem que, no caso de uma nova vaga de mobilização, podem simplesmente ficar sem forma de sair e acabar encurraladas no país.”
Rússia perde tropas a ritmo elevado
Desde o início da invasão em grande escala, em fevereiro de 2022, as perdas do exército russo ascendem a cerca de 1,4 milhões de militares, segundo o Estado-Maior ucraniano e o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), sediado nos Estados Unidos. O CSIS estima ainda que até 450 000 tenham sido mortos.
Especialistas do centro de estudos calculam que, em 2026, a Rússia tem perdido mais de 30 000 efetivos por mês, cerca de 3 000 a mais do que os aproximadamente 27 000 novos militares contratados que recruta mensalmente.
A esperança média de vida de um soldado russo recém-recrutado na linha da frente na Ucrânia é de 20 a 30 minutos, afirmou o diretor da CIA, John Ratcliffe, em 15 de julho, num fórum de defesa na Pensilvânia.
O Kremlin não divulga, em regra, a totalidade das suas perdas.
As autoridades russas negam ter planos de mobilização. “Neste momento não precisamos de uma mobilização em massa; não está prevista nem é esperada”, afirmou na sexta-feira o representante permanente da Rússia junto da ONU, Vasily Nebenzya. E acrescentou: “Tanto quanto sei.”
Na terça-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, classificou as informações sobre preparativos de mobilização como tentativas de “agitar ideologicamente a situação” no interior da Rússia.
A Rússia anunciou uma mobilização “parcial” em 21 de setembro de 2022. Nunca foi publicado qualquer decreto oficial a pôr-lhe fim.
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Fonte: msn.com/História de Alexander Kazakevich