Com eleição na Colômbia, América do Sul dá guinada à direita
América do Sul se aproxima de ter sete dos 12 presidentes do espectro da direita, revertendo a “onda vermelha” do início da década/Foto: Lara Abreu/Metrópoles
Com a recente eleição do advogado de direita Aberlardo de la Espriella na Colômbia e a vantagem de Keiko Fujimori nas eleições no Peru, a América do Sul voltará a ter mais presidentes de direita do que de esquerda.
Os novos governos de direita revertem a “onda de esquerda” no continente no início da década de 2020, com vitórias de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil (2022), Gabriel Boric no Chile (2021), Gustavo Petro na Colômbia (2022) e Luis Arce, na Bolívia (2020).
Agora, com a eleição de Espriella, o América do Sul passa a ter cinco presidentes de esquerda e sete de direita (caso se confirme a vitória de Keiko Fujimori na eleição peruana).

A Guiana Francesa não foi considerada no levantamento pois é um território subordinado à França, sem governo autônomo.
No Peru, que teve eleição no dia 7 de junho, as apurações do 2° turno seguem em andamento. Cerca de 99,7% das urnas já foram apuradas e a candidata direista Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, segue à frente por pouco mais de 40 mil votos.
A atual configuração política do continente reverte a tendência das últimas eleições, com quatro países passando de governos esquerdistas para de direita:
- No Chile, a presidência passou do esquerdista Gabriel Boric para o ultradireitista José Antonio Kast.
- Na Colômbia, passou de Gustavo Petro, de esquerda, para Abelardo de la Espriella.
- Na Bolívia, Luis Arce Catacora, do campo político de Evo Morales, deu lugar ao direitista Rodrigo Paz.
- Na Argentina, o liberal Javier Milei assumiu o governo no lugar de Alberto Fernández.
Eleitores mais pragmáticos e menos ideológicos
Para o especialista em risco político Eduardo Galvão, que é professor do Ibmec do Brasília, as recentes eleições demonstram que os “ciclos ideológicos” na região estão ficando cada vez menores.
“Durante muito tempo, analistas interpretaram as eleições da região a partir da lógica de ciclos ideológicos relativamente longos, alternando períodos de predominância da esquerda e da direita. O que os resultados mais recentes apontam é algo diferente: os eleitores continuam alternando entre os dois campos, mas em intervalos cada vez menores”, destacou o professor.
Para Galvão, os eleitores estão mais pragmáticos, e o que explica a guinada à direita do continente é uma “combinação entre insatisfação com problemas concretos, como segurança pública, crescimento econômico, custo de vida e qualidade dos serviços públicos, e uma crescente percepção de que os governos têm dificuldade para oferecer respostas efetivas a esses desafios”.
“Nesse contexto, quando governos de esquerda não conseguem atender às expectativas da população, cresce o espaço para candidatos de direita. Quando governos de direita também frustram essas expectativas, o movimento se inverte novamente”, destacou o professor.
Eleição brasileira
Neste cenário, o Brasil se aproxima das eleições de 2026 com os principais nomes sendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Para Galvão, a onda de direita “pode influenciar a narrativa da disputa, mas dificilmente determinará seu resultado”. O professor analisa que, historicamente, o que decide as eleições são fatores domésticos.
“Crescimento econômico, inflação, emprego, renda, segurança pública e avaliação do governo costumam pesar muito mais do que tendências regionais”, complementou.
Para o professor, a direita tende a apresentar os resultados no continente como um sinal de esgotamento dos governos de esquerda, enquanto a esquerda tentará destacar as especificidades de cada país para relativizar essa interpretação.
Eleições apertadas
Apesar das vitórias recentes de candidatos de direita na América do Sul, as eleições na Colômbia e Peru apresentaram margens apertadas.
Na Colômbia, as apurações mais recentes apoiam Espriella com 49,6% dos votos, contra 48,7% de Iván Cepeda, candidato de esquerda. A diferença é de cerca de 250 mil votos. No Peru, com 99,7% das urnas apuradas, a diferença é de 40 mil votos.
Para a advogada Joacinara Jansen, autora do livro Propaganda Eleitoral, os pleitos demonstram que o cenário não é de uma “onda ideológica”, e sim o da realidade definindo as eleições.
“Antes de falar em ‘guinada à direita’, vale olhar o placar com lupa. No Chile, José Antonio Kast venceu com folga. Mas, na Colômbia, o resultado de ontem saiu por menos de um ponto percentual e segue em apuração contestada; e no Peru a eleição ainda não tem vencedor declarado, a diferença é de frações decimais”, destacou a advogada.
Jansen comenta que o denominador comum dessas eleições “não é uma bandeira, é um sentimento, inflação, insegurança, desemprego e desconfiança nas instituições. Quando a economia aperta e a sensação de desordem cresce, o voto vira voto de mudança, qualquer que seja o espectro de quem oferece a alternativa”.
“Por isso as margens apertadíssimas no Peru e na Colômbia importam tanto: revelam países divididos ao meio, não convertidos”, destaca.
Fonte: metropoles.com/Pedro Areal