Desembargador do TJMS comprou cão, móveis e construiu mansão com dinheiro vivo, diz PF
Mansão de desembargador foi construída em loteamento de luxo: mão de obra e móveis planejados foram pagos em dinheiro vivo (Foto: Reprodução)
Investigador por soltar o narcotraficante Gerson Palermo, condenado a 126 anos de cadeia, o desembargador Divoncir Schreiner Maran, ex-presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, usou dinheiro vivo para pagar boletos, comprar cachorro, móveis planejados e até para pagar a mão de obra para construir uma mansão em um condomínio de luxo inspirado na Riviera francesa.
As revelações constam do inquérito final da Operação Ultima Ratio, que foi encaminhado ao ministro Francisco Falcão, do Superior Tribunal de Justiça, e ao Ministério Público Federal. O delegado Marcos André Damato, da PF.
De acordo com a investigação, a quebra do sigilo dos telefones do magistrado e da esposa, Viviane Alves Gomes de Paula, apontou o uso de dinheiro em espécie para realizar pagamentos, apesar do desembargador ganhar mais de R$ 100 mil por mês entre salários e penduricalhos. Em 2025, ele recebeu mais de R$ 1,3 milhão do Tribunal de Justiça.
Em maio de 2022, por exemplo, Viviane enviou o pagamento de três boletos em uma lotérica que totalizou R$ 5,6 mil. A quitação ocorreu com dinheiro em espécie. Até para comprar um cachorro, por R$ 8 mil, a esposa do desembargador teria usado notas de reais para depositar na conta da dona do animal.
A PF encontrou recibos que apontaram o pagamento também com dinheiro vivo na compra dos móveis planejados para a mansão de Maran no Riveira Home Club, loteamento de luxo lançado pela Plaenge na Chácara dos Poderes. Um empresário convocado para prestar depoimento informou que dos R$ 577 mil gastos com móveis planejados, R$ 372,5 mil (65% do total) foi pago com dinheiro vivo.
Os investigadores também encontraram o pagamento de R$ 70 mil em uma nota, na mesma condição. A federal suspeita que outro pagamento, de R$ 152,5 mil, foi feito em espécie, mas não fica claro no recibo, mas também não foi encontrado comprovante de transferência ou Pix.
O mestre de obras revelou que Viviane realizava o pagamento quinzenal pela construção da mansão, de R$ 5 mil a R$ 7 mil, com dinheiro em espécie. Outros R$ 140 mil foram pagos para o mestre de obras, também com o uso de notas em espécie, conforme o recibo encontrado pela corporação.
“Entendemos que o uso de dinheiro em espécie por DIVONCIR MARAN e sua esposa/companheira VIVIANE, somado aos demais elementos abaixo expostos, é forte indício de corrupção do mesmo na venda de decisões judiciais”, concluiu Damato.

De acordo com o relatório final, o desembargador Divoncir Maran foi convocado para prestar esclarecimentos na Superintendência Regional da PF, mas ele optou por ficar em silêncio e não responder aos questionamentos do delegado.
Precedente e condenado
Maran também foi alvo da Operação Tiradentes, deflagrada em 8 de fevereiro de 2024, para investigar corrupção e lavagem de dinheiro pela soltura de Palermo. Ele chegou a ser afastado do cargo pelo STJ, mas reassumiu a função por determinação do Supremo Tribunal Federal na véspera de completar 75 anos.
No entanto, neste ano, o Conselho Nacional de Justiça determinou a conversão da aposentadoria por idade em compulsória. Ele foi punido administrativamente pelo habeas corpus para o chefão do PCC no feriadão de Tiradentes de 2020. O bandido de alta periculosidade rompeu a tornozeleira, fugiu e nunca mais foi localizado.
O tribunal cumpriu a decisão e puniu o desembargador com aposentadoria compulsória. Com a penalidade, ele pode responder criminalmente na Justiça, ser condenado e até perder a polpuda aposentadoria.
A Operação Ultima Ratio foi deflagrada no dia 24 de outubro de 2024. O processo segue sob sigilo e envolve sete desembargadores, um juiz e um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.

Fonte: ojacare.com.br/By Edivaldo Bitencourt