Sob expectativa de delação, Vorcaro completa 15 dias preso na PF
Daniel Vorcaro negocia acordo com a PGR e PF e sinaliza que pode implicar políticos e autoridades de diferentes esferas de poder/Foto: Arte sobre foto de divulgação
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, completou 15 dias preso na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília (DF). No centro das investigações, ele negocia um acordo de delação premiada que tem gerado temor nos bastidores do núcleo político brasileiro.
Pela amplitude das relações do banqueiro, da esquerda à direita, passando pelo centro, a delação de Vorcaro está tirando o sono de muitas figuras do meio político.
Vorcaro está detido desde 4 de março. No dia 19 do mesmo mês, foi transferido da Penitenciária Federal para a sede da PF, onde ocupa uma sala já ocupada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A mudança integra as tratativas para a colaboração premiada, conduzidas sob relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Após ter negado o pedido de revogação da prisão, o STF abriu caminho para o avanço das negociações. No dia 19, o ex-banqueiro assinou um termo de confidencialidade com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e com a PF.
Caso rumoroso
- O banqueiro Daniel Vorcaro é o fundador e principal controlador do Banco Master, que cresceu rapidamente no mercado financeiro na última década.
- O banco atraiu milhares de investidores oferecendo CDBs com juros acima do mercado, chegando a captar cerca de R$ 50 bilhões. Parte relevante desses recursos era aplicada em ativos de baixa liquidez, como precatórios e empresas em dificuldade, o que aumentava o risco da operação.
- A PF identificou indícios de um esquema que incluía emissão de títulos sem lastro, operações simuladas e ocultação de recursos por meio de empresas intermediárias. As suspeitas apontam para uma estrutura organizada de fraude dentro do banco.
- Diante da deterioração financeira e de infrações às regras do sistema, o Banco Central do Brasil (BC) decretou, em novembro de 2025, a liquidação da instituição, encerrando suas atividades e marcando o início da fase mais grave do caso.
- No mesmo mês, Vorcaro foi preso pela PF no Aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar em um jato particular com destino a Dubai. Posteriormente, foi solto sob a condição de uso de tornozeleira eletrônica, mas acabou sendo preso novamente em março deste ano durante uma nova fase da investigação.
- As investigações passaram a apontar corrupção de autoridades, lavagem de dinheiro, invasão de sistemas e até planos de intimidação contra jornalistas. Também surgiram indícios de que Vorcaro mantinha conexões com autoridades do BC, Congresso e Judiciário, o que ampliou o caso para além do âmbito financeiro e o transformou em uma crise de dimensão política e institucional.
Delação visa redução de penas e poderá atingir magistrados do Judiciário e políticos
Em busca de redução de pena, Vorcaro sinalizou que pretende apresentar uma colaboração ampla, sem restrições, com nomes, documentos e provas que, segundo sua defesa, podem atingir políticos e integrantes do Judiciário.
A estratégia é aumentar o alcance das revelações para ampliar as chances de benefícios legais.
Investigadores, no entanto, dizem que a palavra do delator, por si só, não sustenta acusações. As informações precisam ser acompanhadas de provas concretas e verificáveis.
A validação cabe à PF e ao Ministério Público (MP).
Motivação financeira é um dos empecilhos que trava delação
A defesa trabalha com um prazo de até 60 dias para formalizar o acordo. A pressa de Vorcaro, no entanto, tem motivação financeira.
O ex-banqueiro teme perder o controle sobre um patrimônio estimado em mais de R$ 10 bilhões, distribuído em fundos no Brasil e no exterior.
Parte desses recursos já está sob investigação, incluindo uma fraude estimada em R$ 12,2 bilhões relacionada à venda de carteiras de crédito ao Banco de Brasília (BRB), além de aportes de fundos de pensão estaduais e municipais.
O cenário se agravou após a liquidação do Banco Master pelo BC, em novembro de 2025. Desde então, os ativos da instituição passaram a ser administrados pelo liquidante Eduardo Bianchini, responsável por organizar o pagamento de credores e a venda de bens.
Segundo estimativas de Bianchini, ao menos R$ 4,8 bilhões em ativos ligados a Vorcaro já teriam sido desviados antes da liquidação. A avaliação entre investigadores é que a devolução de parte relevante desses valores será condição essencial para o avanço da delação.
A expectativa é que dificilmente haverá acordo sem devoluções expressivas. O próprio relator, Mendonça, tem histórico acadêmico voltado à recuperação de ativos em casos de corrupção, o que reforça a exigência por provas materiais e ressarcimento.
A possível delação é acompanhada com atenção por autoridades, diante do potencial de atingir figuras centrais do sistema político brasileiro e provocar novos desdobramentos institucionais no país.
Fonte: metropoles.com/Álvaro Luiz, Giovanna Estrela