Pressionado, Sergio Moro não tomará iniciativa de sair do governo

O ministro da Justiça, Sergio Moro , deve aguentar calado derrotas e desautorizações públicas a que vem sendo submetido pelo presidente Jair Bolsonaro . O chefe do Executivo terá que assumir o desgaste de demitir o ministro mais popular da Esplanada se quiser ver Moro fora do governo e, claro, explicar os motivos da demissão. Quem diz isso são pessoas que convivem com o ministro.

Na quinta-feira, mesmo depois das declarações de Bolsonaro sobre a possibilidade de trocar o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo, Moro manteve a agenda sem qualquer alteração. Participou de duas solenidades e várias reuniões com auxiliares e com parlamentares. Reservado, o ministro não explicitou críticas ou queixas.

O ministro Justiça, Sergio Moro, é alvo de representações do PT Foto: Jorge William / Agência O Globo
Foto: Jorge William / Agência O Globo

No primeiro mês de gestão, o presidente Jair Bolsonaro editou decreto para flexibilizar o porte e a posse de armas sem pareceres técnicos do Ministério da Justiça. Moro mostrou desconforto sobre o projeto e disse que a medida não era política de segurança pública.

Cientista política Ilona Szabó. 02/08/2018 Foto: Marcelo Régua / Agência O Globo
Foto: Marcelo Régua / Agência O Globo

Moro indicou a cientista política Ilona Szabó como suplente para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.A militância bolsonarista nas redes sociais reagiu, e o ministro foi obrigado a recuar e desfazer o convite após telefonema de Bolsonaro.

Principal projeto de Moro, o pacote anticrime sofreu desidratações na Câmara dos Deputados e não recebeu o apoio esperado de Bolsonaro. O presidente chegou a defender que Moro desse uma “segurada” no projeto para não causar “turbulência” às reformas.

Moro queria o Coaf na Justiça, mas foi derrotado na Câmara com o aval de Bolsonaro para que o órgão voltasse para a Economia. Em um novo revés do ministro, o chefe do Coaf, Roberto Leonel, indicado pelo ex-juiz, perdeu o cargo após pressões do presidente.

Após a troca do chefe da Polícia Federal no Rio e a tentativa de nomear outro superintendente, Bolsonaro disse que pode mudaro diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, escolhido pelo ministro. O presidente fez questão de afirmar que ele é o responsável pela indicação, não Moro.

Interlocutores de Moro consideram que as declarações de Bolsonaro têm sido excessivas, sobretudo sobre mudanças na PF. Para eles, o presidente estaria interessado em “desidratar” o ministro para que não faça sombra sobre ele. Bolsonaro estaria de olho em 2022 e não quer, segundo esses interlocutores, nenhum concorrente forte por perto.

O ministro da Justiça, Sergio Moro, ao lado do presidente da República, Jair Bolsonaro, durante cerimônia do 154º aniversário da Batalha Naval do Riachuelo, em Brasília, no dia 11 de junho. Primeiro encontro público entre Bolsonaro e Moro após a revelação de conversas do ex-juiz com o coordenador da Lava-Jato, Deltan Dallagnol, pelo site "The Intercept Brasil" Foto: EVARISTO SA / AFP
O ministro da Justiça, Sergio Moro, ao lado do presidente da República, Jair Bolsonaro, durante cerimônia do 154º aniversário da Batalha Naval do Riachuelo, em Brasília, no dia 11 de junho. Primeiro encontro público entre Bolsonaro e Moro após a revelação de conversas do ex-juiz com o coordenador da Lava-Jato, Deltan Dallagnol, pelo site “The Intercept Brasil” Foto: EVARISTO SA / AFP
O ministro da Justiça, Sergio Moro, em 10 e junho, participa da abertura do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Justiça, Cidadania, Direitos Humanos e Administração Penitenciária, em Manaus. Moro respondeu a jornalistas sobre a publicação da reportagem do site "The Intercept Brasil" que divulga material, incluindo chats privados, gravações de áudio, vídeos e fotos trocados entre o ele e o Procurador Federal Deltan Dallagnol Foto: MICHAEL DANTAS / AFP
O ministro da Justiça, Sergio Moro, em 10 e junho, participa da abertura do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Justiça, Cidadania, Direitos Humanos e Administração Penitenciária, em Manaus. Moro respondeu a jornalistas sobre a publicação da reportagem do site “The Intercept Brasil” que divulga material, incluindo chats privados, gravações de áudio, vídeos e fotos trocados entre o ele e o Procurador Federal Deltan Dallagnol Foto: MICHAEL DANTAS / AFP

Tão reservado quanto Moro, o diretor da PF também decidiu se manter em silêncio. Depois da nota da semana passada na qual desmente Bolsonaro sobre as razões da troca do superintendente no Rio , Ricardo Saadi, Valeixo e os demais diretores resolveram aguardar os movimentos do presidente sem fazer novas manifestações públicas. Na nota, Valeixo disse que Saadi deixaria o cargo por vontade própria. Na quinta-feira passada, Bolsonaro afirmou que o delegado sairia por problemas de “gestão” e “desempenho”.

O ministro da Justiça, Sergio Moro 08/07/2019 Foto: Márcio Alves / Agência O Globo
Foto: Márcio Alves / Agência O Globo

Desde que foi enviado por Moro à Câmara dos Deputados, o pacote anticrime vem sendo desidratado pelos deputados. Já de início, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, determinou que o projeto tramitasse junto de uma proposta do ministro Alexandre de Moraes, do STF. O grupo de trabalho sobre o tema já fez mudanças na proposta do ministro.

Sede do Coaf em Brasília Foto: Reprodução / TV Globo
Foto: Reprodução / TV Globo

Moro gostaria que o Conselho ficasse no Ministério da Justiça, mas foi derrotado na Câmara. Agora, o presidente do órgão, Roberto Leonel, indicado por Moro para o cargo, pode ser demitido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

Moro indicou a cientista política como suplente para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. A militância bolsonarista nas redes sociais reagiu fortemente, e o ministro foi obrigado a recuar e desfazer o convite.

As declarações de Bolsonaro sobre Saadi foram as primeiras manifestações públicas de um presidente da República sobre um cargo de segundo escalão da Polícia Federal.

A praxe

Em geral, políticos, sobretudo governadores, tentam influenciar na indicação de superintendentes. Mas isso é feito, em geral, de forma indireta. E a cúpula da polícia evita indicar para as superintendências delegados sem bom trânsito com administradores locais, especialmente governadores.

Ao anunciar a saída de Saadi e mencionar um outro nome para o cargo, diferente do escolhido pelo diretor-geral, Bolsonaro interferiu na administração interna da polícia. Valeixo e os demais diretores teriam se sentido atropelados pela imposição do presidente. Da mesma forma, Bolsonaro teria se sentido afrontado pela nota em que a PF informa sobre os motivos da troca de comando no Rio e indica o nome do sucessor de Saadi, diferente do que o presidente anunciara.

(Por O Globo)

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